Para começar a estudar o hip-hop

Você sabia que algumas universidades no mundo têm disciplinas focadas no hip hop? Que existem periódicos acadêmicos com artigos científicos sobre hip hop? Que em 2016 a biblioteca do departamento de música da Harvard, nos Estados Unidos, começou a arquivar os dez melhores álbuns de hip hop de cada ano, como fonte de referência para pesquisas? Os estudos de hip hop são um campo em que pesquisadores se dedicam a investigar o hip hop, a partir de várias disciplinas — como sociologia, comunicação, história, antropologia, e por aí vai.

A pesquisadora brasileira Jaqueline Lima Santos, por exemplo, é autora do estudo Negros, Jovens e Hip Hoppers: Histórias, narrativas e identidades em Sorocaba e mestre em Ciências Sociais pela UNESP — a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Jaqueline esteve em Harvard e foi responsável por levar materiais do hip hop paulista para o arquivo daquela instituição, em 2012. A Cornell University, no estado de Nova York, também possui uma coleção com panfletos, fitas K7, vinis e CDs, filmes e vídeos, fotografias, material promocional de gravadoras, revistas, livros, zines, e até itens de vestuário e outros acessórios.

Exemplo de periódico acadêmico no campo dos Estudos de Hip Hop: http://jhhsonline.org

O livro que abriu caminho para os estudos universitários sobre hip hop foi publicado vinte anos depois que o hip hop surgiu. O hip hop surgiu no meio dos anos 70 e, em 1994, Tricia Rose lançou o livro Black Noise: Rap Music and Black Culture in Contemporary America. Em português, seria algo como “Ruído negro: música rap e cultura negra nos Estados Unidos de hoje”. Parece que demorou muito tempo, entre o início da cultura hip hop e o lançamento do primeiro livro importante sobre ele na academia, mas não é bem assim.

Para se ter uma ideia, um dos primeiros periódicos acadêmicos sobre estudos de música popular, música popular no geral mesmo, só começou a ser editada em 1985. Foi a publicação francesa Vibrations. Musiques, médias, société. Dez anos depois dos estudos de música popular começarem a se estabelecer, veio Black noise, de Tricia Rose, que junto com outros pesquisadores estava investigando e escrevendo os primeiros artigos sobre hip hop, no começo dos anos 1990, nos Estados Unidos. Aí o campo dos estudos de hip hop começou a se consolidar.

No Brasil, os trabalhos também começam a engrenar. Em 1997, foi lançado o livro Abalando os anos 90: funk e hip hop, com artigos organizados por Micael Herschmann, da Universidade Federal do Rio Janeiro. É o ano em que Francisco José Gomes Damasceno, hoje professor na UECE — Universidade Estadual do Ceará, concluiu seu mestrado em História na PUC de São Paulo. A pesquisa dele foi sobre o MH2O — Movimento Hip Hop Organizado do Ceará, entre 1990 e 1995. Depois, continuou a investigação no doutorado, também sob orientação da professora Yvone Dias Avelino, ampliando a pesquisa para o movimento hip hop e o movimento punk em Fortaleza. Foi lançado em livro em 2012, pela Eduece, a partir da tese em História, defendida em 2004, na PUC-SP.

Em 1998, também tivemos, em Fortaleza, o lançamento do livro “Cartografias da cultura e da violência: gangues, galeras e o movimento hip hop”, de autoria da professora Gloria Diógenes, da UFC — Universidade Federal do Ceará. É possível baixar a pesquisa no repositório digital da Universidade.

Estudo pioneiro de Glória Diógenes (UFC) realizado em Fortaleza

Nos anos 2000, aconteceu um boom de pesquisas sobre o hip hop no Brasil, em nível de pós-graduação. Isso significa que houve uma considerável produção de dissertações e teses sobre o tema, em todo o país. Lá fora, outros dois livros importantes foram lançados. Um deles é Can’t Stop, Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation, uma história da geração hip hop, lançado por Jeff Chang em 2005. O outro é That’s the joint! : the hip-hop studies reader, uma compilação de artigos de vários autores, cada um com sua pesquisa.

Parte Um chama-se “Hip-Hop Ya Don’t Stop”, e reúne trabalhos sobre história e historiografia do hip hop.

Parte Dois é “No Time for Fake Niggas”, sobre cultura hip hop e os debates em torno da questão de autenticidade.

Já a Parte 3 tem o título “Ain’t No Love in the Heart of the City” e traz pesquisas sobre a relação entre hip-hop, espaço e lugar.

Parte 4“I’ll Be Nina Simone Defecating on Your Microphone”, sobre hip-hop e gênero. E não é sobre gênero musical, mas gênero na perspectiva do feminino, masculino, e assim por diante.

Parte 5: “The Message”, com capítulos sobre rap, política e resistência.

Parte 6“Looking for the Perfect Beat”: pesquisas sobre estética do hip hop e tecnologias de produção

Parte 7“I Used to Love H.E.R.” reúne artigos sobre a relação entre o hip hop e as indústrias culturais

Parte 8: Não tem parte oito, porque o livro já tem mais de 600 páginas e tinha que acabar em algum momento, não é mesmo?

“Ai, mas eu não sei ler em inglês.” Para quem está em Fortaleza, é só fazer a seleção para a Casa de Cultura Britânica, da UFC. Não precisa ter terminado o ensino médio, basta ter o ensino fundamental concluído para fazer a seleção das Casas de Cultura Estrangeira. Não tem mensalidade: faz parte da UFC, universidade pública e gratuita.

Existem livros relativamente novos sobre hip hop no Brasil, como Rap e política: percepções da vida social brasileira, de Roberto Camargos, e Se liga no som: as transformações do rap no Brasil, de Ricardo Teperman. São de 2015, ou seja, antes do fenômeno “Sulicídio”. Precisamos de novas pesquisas que possam dar conta do contexto do hip hop brasileiro neste momento, expandindo as análises para, por exemplo, essa nova situação em que as cenas locais de várias regiões começam a se fazer mais presentes no que a gente entende como cenário nacional, muito em função dos usos que artistas e fãs fazem da internet. Fica o convite para pensar e fazer isso aí.

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Este texto foi ao ar originalmente no Zumbi — O Rap na Universitária FM, em 24 de março de 2019. Ouça os programas anteriores online.

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