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Coro Mc, pt. 01

Coro Mc no lançamento de “Veterano”, de Nego Gallo, no Dragão do Mar [Foto: Ariel Gomes]

Com esta entrevista, começamos a publicar a transcrição de algumas conversas transmitidas no programa Zumbi – O Rap na Universitária FM. Por ser longa, vamos publicá-la em duas partes, mas o áudio completo está disponível para audição na internet, tanto na coleção de programas no Mixcloud, como também no podcast Ceará Sonoro, que está no Spotify, Deezer, iTunes ou no seu agregador preferido. A entrevista com Coro Mc foi gravada no dia 24 de maio de 2019 e transmitida no programa de 02 de junho. Aí vamos!

Thaís Aragão Estamos aqui hoje na presença de Jonas de Lima, mais conhecido pelos ouvintes pelo seu vulgo Coro Mc, e pelas músicas que a gente sempre toca aqui no Zumbi. Muito obrigada por vir!

Coro Mc — Eu que agradeço. Tamo junto. Salve galera!

Vou fazer uma breve apresentação para os desavisados. O Coro Mc já foi selecionado para uma ação internacional da Converse (fabricante dos tênis All Star), para gravar em um dos melhores estúdios do mundo, entre 2015 e 2016. E fez parte de uma playlist com artistas de mais de 25 países, com a música Insólita Sensação, que fala das vivências dele aqui em Fortaleza. Além das próprias músicas, ele também é produtor e tem trabalhado tanto com novos nomes da cena hip hop de Fortaleza, como também produziu a nova mixtape do veterano Nego Gallo, junto com Léo Grijó.

Nas últimas semanas você se apresentou com o seu trabalho na mostra Alastra Cultura, no Cuca Barra, e também se apresentou com o Gallo, nos shows da mixtape “Veterano”, tanto em Fortaleza quanto em São Paulo. E vocês estrearam lá esse show, que estava sendo tão aguardado. Como é que foi?

De antemão, assim… Foi um baque, porque a gente não esperava lançar o Veterano logo em São Paulo. Quando a gente ficou sabendo, foi logo ali, no início, que tinha sido colocado o disco na rua. Só que a gente fez no estilo mineirinho. Foi comendo quieto e não disse pra ninguém. E fomos só trabalhando. Na realidade, a gente vinha trabalhando desde o último show, que tinha sido em agosto do ano passado. A gente começou a ensaiar pro show de agosto em maio do ano passado. Ensaiamos até agosto junto com Doiston, Edgar, o David (Dssrua)… E quando foi depois de agosto, que a gente fez o show em São Paulo e voltou, o próprio Edgar se prontificou de ficar recebendo a gente e fazer ensaios semanais.

Ensaio para o show “Veterano”, de Nego Gallo, no Estúdio Raiz, com Coro Mc, Doiston e Edgar Marques, em março de 2019 [Vídeo: Thaís Aragão]

Edgar Marques, né?

Isso, Edgar Marques. Grande produtor, e técnico de áudio também, que está trabalhando com a gente. A gente teve sorte de estar trabalhando com um cara tão competente. E a gente continuou fazendo os ensaios, nessa perspectiva de novos trabalhos aparecerem e [para] que a gente estivesse preparado para quando novos trabalhos aparecessem. E a gente continuou trabalhando.

Depois de dezembro, que virou o ano, a gente sabia que vinha o disco. Tinha uma informação não tão concreta de que poderia ter um lançamento em São Paulo. Então a gente trabalhou mais focado nessa perspectiva. Não só em passar as músicas, mas também de criar um roteiro pro disco ser apresentado, de uma maneira também que “lincasse” com a história do Carlinhos [Nego Gallo], desde que ele veio no Costa a Costa, e a gente pudesse, tipo, fazer uma passagem por todos os períodos da carreira dele. E foi bacana a gente construir esse formato de show. Foi esse tempo que a gente teve, depois que descobriu. E foi trabalhando nesse formato até a data do show.

O show, especificamente… Não teria nem palavras pra mensurar. Porque a gente, de fato, não esperava que ia ter tanta gente. A gente esperava que ia ter um público, mas não um público tão grande quanto a gente viu lá no SESC [Pompeia]. É uma casa bastante espaçosa, e, por alto, a gente colocou mais da metade da casa. Então, acabou sendo preenchida a casa inteira, mas com as pessoas com um espaço bacana pra se mexer e dançar.

Foi naquela Choperia?

Foi, foi. Lá, no SESC Pompeia. Enfim, foi algo assim, que a gente não esperava. E acabou sendo um combustível pra gente colocar mais gás nisso. E acabou sendo um show muito bacana. Tivemos a cobertura do [programa de TV] Profissão Repórter desde aqui, desde quando a gente tava ensaiando aqui. E, lá, eles também estavam nos bastidores com a gente. Teve também o apoio do Elegannex, um estilista de São Paulo que fez nosso figurino. A gente acabou dando um toque especial no show. Tinha muito trabalho de áudio e performance de palco, mas quando você mescla isso – música boa – com performance boa, com figurino bom, com equipe, pra poder dar aquela explanada pro país [sobre] o que está acontecendo… A gente acabou que viu que tomou uma proporção bem bacana. E tamo aí pronto pra colher os frutos.

Frutos, frutos. Conta mais de como foi que você conheceu o Gallo, o Edgar Marques da Frutos… Porque eu acho que já tem anos que vocês estão trampando juntos, não é?

O Gallo, eu conheço ele há muito tempo. Eu comecei a fazer rap em 2005. Em 2006,  a gente tinha lançado já os primeiros trabalhos com o meu grupo. Não sei se você conhece, o RDF [Relatos de Fortal]. No grupo, sou eu, o Padêro [MC, Francisco Velto], o Sid [MC, Kleverton Cordeiro]. A gente tinha lançado já alguns trabalhos. Em 2007, a gente fez alguns eventos na comunidade do nosso bairro, mesmo. A gente tinha muito essa pegada de que, como tinha poucos eventos privados, que contratavam artistas locais, a gente acabava fazendo a produção cultural de praticamente toda a cena do rap que acontecia em Fortaleza e nas cidades circunvizinhas, como Maracanaú, Caucaia. Era a própria galera do rap que se mobilizou e fazia um evento, chamava, e a gente se deslocava para bairros e bairros. E, numa dessa, a gente fez um evento lá em nosso bairro. O Sid já conhecia o Gallo.

O bairro é…?

Goiabeiras, na Barra do Ceará. E o Sid já conhecia o Gallo. Convidou ele, e Gallo apareceu no evento. Foi a primeira vez que eu conheci ele, pessoalmente. Mas já sacava ele, pelo Costa a Costa.

Em que ano foi isso, mais ou menos?

2007. Foi logo que saiu a mixtape [Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa]. Na verdade, a gente não se tornou amigo naquela época. A gente só se conheceu. A gente veio a se comunicar mais, e ter uma relação de mais comunicação, afinidade e intimidade, em 2010, quando a gente foi preparar o segundo disco – que era o Coração Vagabundo, que eu já tava produzindo nesse tempo. Fui eu que produzi esse disco, e tive a parceria de um produtor americano pras mixagens, que é o Billy [Gringo]. E, nessa época, a gente pensou em convidar o Gallo pra tocar um som com a gente, que foi o “O céu é o limite”, que tem nesse disco do RDF.

“O céu é o limite”, do RDF (iniciais de Relatos de Fortal), tem uma das primeiras participações de Nego Gallo em trabalhos de Coro Mc – que, nessa época, entre 2010 e 2013, integrava o grupo. Ele estava envolvido na produção desse álbum do RDF, chamado Coração Vagabundo.

A gente retoma agora a entrevista com o Coro, em que ele vai falar um pouco mais sobre o cenário a partir dali, desde políticas públicas até como ele aprendeu a criar beats originais e passou a atuar como produtor. Escuta aí!

Coro Mc — E aí, foi uma época boa. Acredito que foi uma das melhores épocas pra mim, no hip hop dessa cidade. Porque foi a época que a gente conseguiu mais espaços, mais oportunidades, no âmbito do recurso público da Cultura, que taí sendo disponibilizado. Foi uma época em que a gente pode ver uma real democracia dos recursos, onde você poderia perceber que as pessoas estavam sendo selecionadas pelos trabalhos que estavam realizando. A gente vê bem diferente de alguns anos pra cá. Você vê grupos e grupos se instalando, com influência política, nos aparelhos de cultura. E você acaba sendo lesado. Literalmente, lesado. Porque você acaba não tendo oportunidade de acessar esse recurso.

E se você é uma pessoa que acessou esses recursos e, por algum acaso, você teve alguma desavença com os órgãos que empreendem esses eventos… Tipo, eu já tive algumas desavenças. Como no caso de dívidas [em] que alguma dessas instituições estavam comigo. E eu sou um tipo de cara que cobra o que me devem. Principalmente quando se trata de uma instituição. Porque quando é uma pessoa, e você sabe da condição da pessoa, você até releva. Mas quando é uma instituição, que você sabe que tem recursos praquilo, e você sabe e conhece como são os trâmites administrativos, você não é leigo sobre isso, você percebe que as pessoas estão querendo lhe enganar mesmo, de fato. E empurrar com a barriga. Você acaba se chateando. Em algumas ocasiões, eu precisei falar muitas coisas – que não eram mentiras: eram verdades – e que acabavam chateando essas pessoas.

Acabei sendo boicotado várias vezes aqui, em vários editais. Posso dizer isso, com toda certeza. Porque as coisas que eu realizei foram coisas que quase nenhum artista daqui realizou. E quando você vai entrar num edital deste e não consegue entrar, e vê pessoas que nem sequer realizou um terço do que você fez, [que] estão lá dentro porque tem uma esposa que é influente politicamente, ou um amigo que é influente politicamente, ou uma produtora que tem influência política, que pode ir ali e pedir pra curadoria selecionar os projetos deles… Então, essa fase é o que permeia  hoje o âmbito da cultura no recurso público. Não sei se no estado todo, mas pelo menos nas instituições de Fortaleza. É triste. É até chato [que] pessoas do gabarito de Carlos Gallo, de mim… Não é querendo se colocar acima de outros artistas. Mas é sendo realista, dentro do que a gente já se propôs a fazer e realizar. É muito chato a gente, até hoje, precisar se encaminhar às instituições e solicitar um espaço, quando a gente já deveria estar sendo requisitado. Porque outras pessoas de fora, que não realizaram trabalhos tão conhecidos, são requisitadas. Outras pessoas daqui mesmo são requisitadas. E por que a gente não é requisitado? A gente pensar que, muitas das vezes, é por conta dessa parada, dessa dificuldade, que a galera tem de ser honesto com os recursos. E a gente tem isso.

Isso é uma tecla que a gente bate bastante. Inclusive a gente tem se omitido dos editais ultimamente, justamente por isso. Porque vê muita corrupção mesmo. A gente vê corrupção dos nossos amigos, de pessoas que se diziam nossos amigos. Artistas, que se diziam estar do nosso lado sempre. Mas os caras veem que não fizeram trabalhos tão relevantes quantos os nossos. Os caras veem que estão dentro da máquina em todos os editais, festivais. Mas eles não querem se colocar como pessoas corruptas. Mas são corruptos. Porque se compactuam com a ideia de que fazem parte de um círculo, ou de um coletivo, onde todos estão sendo agraciados com um recurso de uma maneira injusta, onde pessoas que mereciam estar ali sendo agraciadas com esse recurso por direito… Não é por pedir: é por direito. E você vê algumas coisas dessas. Acaba que a gente também se afastou até de alguns artistas. Infelizmente, é o cenário.

Coro MC com MV Bill no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro [Foto: Divulgação/Converse]

Vamos falar das suas habilidades. O MV Bill foi a “visita surpresa” quando você estava no Rio de Janeiro, gravando lá no estúdio Toca do Bandido, por conta dessa sua seleção na ação global Rubber Tracks, da Converse. O Bill falou algo muito interessante sobre essas suas habilidades: que elas não são, assim, comuns. Ao mesmo tempo que você manda as rimas – ou seja, você é MC – você também é um produtor. Você cria beats. Não é todo mundo que faz essas duas coisas juntas. Você cria beats, você participa da concepção artística de projetos autorais – não só os seus, mas de outros rappers. O Wesley Farpa, do [projeto] Alastra Cultura, esteve aqui no Zumbi e disse que você também foi muito importante nas áreas de vocês, lá nas Goiabeiras, porque você teria sido um dos primeiros a descobrir como fazer beats. Então, não precisava mais baixar beats gringos na internet para rimar em cima. Então conta pra gente como é que você aprendeu a fazer isso.

Pronto. Então, em 2005, quando eu fiz minhas primeiras rimas, a gente não tinha batida. Tinha um disco que o Sid tinha ganhado do Don L. Um disco que continha dez beats, mas todos os beats eram de músicas internacionais. Ele tinha conseguido os beats e tinha dado pro Sid. Porque o Sid tinha um grupo antes de fazer parte do nosso grupo – que era o D’Rocha. E lembro como hoje que tinha um amigo, que não era o Padêrinho, que era o Assis. E eu cantava com ele na frente da casa dele. A gente tinha uns microfonesinhos de karaokê e um DVD. Ligava numa caixinha de som e ficava tocando, em frente à casa dele. Aí tinha, tipo, cinco batidas, nesse CD que tinha dez beats, que a gente não podia cantar nessa batidas, porque o Sidjá cantava nelas. A gente escolheu as outras cinco. De repente, eu já tinha escrito algumas músicas, e queria gravar outras. Eu conhecia o Padêrinho, e ele conhecia o Erivan [Produtos do Morro]. Por consequência disso, ele acabou me levando proErivan. Quando cheguei no Erivan, ele já tinha um home estudiozinho montado, e utilizava o FL Studio, que é um programa de fazer batidas. É o mais conhecido, acho.

Que é o [antigo] Fruity Loops.

Fruity Loops. Na verdade, o Erivan não ensinou a fazer batida. Ele nem tinha tempo, porque a gente ia, e ele queria trabalhar a produção. O que acontecia é que eu tocava. [Em] todas as músicas do primeiro disco do RDF, eu tocava o violão. E o Erivan captava aquele áudio do violão e jogava as batidas em cima. Eu não me sentia muito à vontade com alguns arranjos que a gente tentava produzir lá, com o Erivan, com músicas. Por isso que eu colocava o violão, pra gente ter uma harmonia musical da qual eu me identificasse. Mas o Erivan foi importante, no sentido de que foi ele que me concedeu pela primeira vez o set-up do programa. Eu não tinha computador na época. Como via ele fazendo as coisas, eu prestava muita atenção, sabe? Eu via ele fazendo e prestava atenção. Eu tinha uma facilidade muito grande de aprender coisas que se faz em computador. Quando eu via ele produzindo, percebi que tinha uma teclas ali, e tal, mas que ele não utilizava. Ele acabava utilizando só os drums, só as baterias. E eu colocava a música, né?

Então, com o set-up do programa que ele me deu, eu ia na lan house. Todo dia, eu instalava. Porque tinha o [programa] Timer Café, na lan house, que desinstala todos os programas que são instalados ali, todo dia. Eu ia na lan house diariamente. Alugava ali duas, três horas. Instalava o programa, começava um projeto ali, e ia experimentando. Às vezes, quando dava errado ou eu fazia alguma coisa errada, desinstalava o programa e instalava de novo. E já não dava aquela mancada mais. E fui apreendendo.

Os primeiros projetos de beat que fiz, acho que demorei uma semana para fazer. Porque ficava ali mexendo, futricando. Aí, quando dava fé, acabava o tempo. E, aí, eu ia no outro dia. Tinha que instalar o programa de novo. Salvava o projeto num pendrive, abria de dentro do pendrive o programa e o projeto, e ia continuando. Houve uma época em que meu pai tava em uma transição de um emprego para outro. Ele sabia que a gente vem de uma situação bem difícil. Ele tava separado da minha mãe, na época, e eu tava desempregado e precisava de recursos, de alguma forma. Ele perguntou pra mim o que poderia fazer pra me ajudar, pra mim conseguir algum recurso. Ele ia sair do emprego e entrar no outro, então recebeu uma quantia das contas dele. Ele queria me ajudar, e perguntou se eu queria um lava jato, daqueles de lavar uma moto e tal, um carro. Aí eu disse: “Pai, se o senhor quiser me dar um computador, eu aceito. [Porque com] um computador, eu sei que vou fazer alguma coisa que vai ter um futuro pra mim”. Aí ele até perguntou assim: “O que é que tu vai fazer? Vai fazer xerox, vai fazer o quê?” Aí, eu disse assim:

— Não, pai. Eu vou fazer batidas de rap. [risos]

— Mas isso aí dá dinheiro mesmo, cara?

— Pai, se a pessoa aprende a fazer direito, e fizer bem… dá dinheiro, sim. Não dá… uma “ruuuuuma” de dinheiro, e agora. Mas, sim. Pode dar dinheiro, sim.

E eu preferiria fazer batida do que lavar uma moto. Não que seja ruim trabalhar lavando carro. É que eu sabia que tava pronto pra fazer aquilo dali, tá entendendo? Eu vinha já estudando aquilo, e queria ter um equipamento que pudesse me aprofundar mais. E era bem básico, o computador que ele comprou pra mim. Era um computador doméstico. E sou muito grato ao meu pai, apesar de que a gente teve nossas diferenças quando criança. Mas sou muito grato ao meu pai porque, independente do que houve na relação dele com minha mãe, ele sempre foi um pai presente – no sentido das obrigações dele no que diz respeito à nossa criação. Sou muito grato por ele ter me dado  meu primeiro computador. Não sou um playboy, que pode dizer que ganhei tudo dos meus pais. Era muito raro a gente ganhar um brinquedo quando era criança. Nossa vida era bastante difícil. Pra mim, foi muito gratificante – grande já, adulto – ganhar um presente desses. Foi bacana.

Trabalhei um ano com esse computador. Fiz alguns clientes, que eram amigos. E acabou que, com essa clientela, fui ali trocando uma peça ou outra, até que tinha um computador mesmo, suficientemente bom para realizar as produções. E aí, pronto. Nessa época, eu já tava fazendo beat adoidado.

RDF – Relatos de Fortal, grupo com o qual Coro Mc gravou dois álbuns
[Foto: Divulgação]

A gente pode falar que aí começou um estúdio, algo assim?

Não, não. Pra começar um estúdio demorou muito ainda.

O Gallo fala que vocês  gravaram nas Goiabeiras.

Na verdade, a gente gravou o disco dele no meu home studio. Mas, até chegar no home studio, demorou. Foi um processo enorme. Passei muitos anos trabalhando só com um computador, esse computador que eu acabei montando. E, por incrível que pareça, com um som comum, de casa. A gente fazia uma gambiarra. Chegava no Centro, ali na [rua] Pedro Pereira, e pedia ao cara pra criar um cabo que não existe – que é um cabo P2 com a saída de RCA. Aí, ligava do P2 do computador pro RCA auxiliar do [aparelho de] som, que acabava reproduzindo o som que o computador estava projetando. Na verdade, é até ruim para o áudio, porque não projeta o áudio original, quando a gente manda assim para um [aparelho de] som. Mas porque eu precisava, na época isso me ajudou bastante.

O segundo disco do RDF, que foi o primeiro que eu produzi, foi todo produzido dessa maneira. Inclusive, algumas mixagens prévias foram feitas nesse aparelho, que era um aparelho de som normal, comum. Depois, trabalhando em outros empregos, pude ir comprando ali uma placa de áudio e, aí, ia incrementando. Quando saí do meu emprego, na época do lance com a Converse, foi uma turbulência. Foi muita coisa, na época da Converse. Eu tinha um emprego fixo em que eu trabalhava há quatro anos, aqui na Universidade [Federal do Ceará].

Era nosso colega, aqui.

Eu era vigilante aqui.

No [Campus do] Pici.

Isso. Mas já trabalhei aqui também, no Benfica. Já trabalhei aqui em frente, nesse prédio aqui, Anexo da Reitoria. Nesse período, tinha muita coisa… Tinha essa situação da Converse acontecendo. Eu tinha um emprego de segurança. É um emprego, não sei por que, mas é dito como um emprego mais sério. Não é emprego “comum”, como os outros [dizem]. Eu enxergo como um emprego comum, e vínculo empregatício como qualquer outro. Mas, para as pessoas que estão inseridas na área de segurança, eles enxergam um emprego diferenciado. O que acontecia é que eu sabia que a empresa não ia me liberar para viajar para os Estados Unidos [risos], para fazer música, né?

Aí eu tava nesse impasse. “Poxa, o que é que eu vou fazer?” E a minha mulher tava passando por uma gravidez de risco. Ela tava grávida do meu filho mais novo, que é o Guilherme. Tinha uma encruzilhada ali para mim. Acabei optando por abandonar o emprego, porque eu ia acabar cuidando da minha mulher mesmo, e da minha filha, no final do ano. A gente sabia que ela ia ter um filho no final do ano. E também para fazer esse lance da Converse sem nenhum peso na consciência, quanto ao trabalho. Então, acabei fazendo um acordo com a empresa, saí do emprego e fui fazer essa correria com a Converse.

Quando voltei, que recebi minhas contas, aí foi quando montei o home studio. Porque eu me vi sem emprego e tinha ali um dinheiro, que se… Eu não tenho casa própria, moro em casa alugada. Percebi que se eu não fizesse algum investimento com aquele dinheiro ali, esse dinheiro ia acabar indo embora e eu não fazia nada. Então, eu já tinha um computador, já tinha a placa e já tinha os monitores. Peguei e decidi que ia comprar um microfone, headphone, e ia montar uma caixa acústica. Acabei fazendo isso. Comprei uma folha de MDF, comprei algumas esponjas acústicas dessas aqui [aponta paras as paredes do estúdio da Universitária FM], e eu mesmo… Pedi a um colega meu para serrar, a gente parafusou, fez a caixa acústica ali, vizinho ao meu computador. E foi onde saiu Nego Gallo, “Veterano” [risos].

Um sucesso, né? O primeiro grande lançamento do hip hop nacional em 2019.

Com certeza! Sem sombra de dúvidas. E tamo torcendo aí pra ser um dos mais do ano.


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Leia a Pt.2 e escute a entrevista na íntegra:

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