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As faixas moventes da mixtape de Nego Gallo

Nego Gallo nos mares de Fortaleza (Foto: Antonello Veneri/Divulgação)

Alex Ratts, antropólogo, geógrafo e poeta

Nos primeiros dias deste ano, o rapper Nego Gallo lançou a mixtape Veterano em várias plataformas de streaming, o contemporâneo fluxo de informação, imagem e som. Em meados dos 1990 nos encontramos no movimento negro e em algumas comunidades. Não nos avistamos mais, porém, de tempos em tempos dou uma olhada e uma escutada em seu trabalho. O camarada se interessava pelo rap, rascunhava canções e trilhava um caminho ao qual se tornou fiel.

Meu contato mais direto com o hip hop se dá nessa época, quando residia em São Paulo e voltava uma ou duas vezes ao ano para Fortaleza. Rapidamente entendi que havia uma reapropriação da poesia, com uma retomada da rima e letras que traziam uma biografia e uma geografia coletivas, da juventude das áreas negras e populares, das quebradas, vielas, favelas, comunidades e quilombos urbanos de todo o país e do mundo.

Após outras experiências musicais, uma virada em sua trajetória foi a formação do grupo Costa a Costa, com Don L. e Preto B, resultando em um trabalho reconhecido e premiado no plano nacional. Depois fez carreira própria e lançou a mixtape CV – Carlin voltou, tia! em 2016. A reverberação do trabalho atual pode ser conferida em um dos maiores canais da web onde as principais faixas alcançaram muitos milhares de visualizações/audições.

O artista – Carlin, Carlos Gallo, Nego Gallo – com vários nomes, à maneira africana-descendente, traz em alguns versos traços biográficos pessoais e comuns aos seus semelhantes. Vários parceiros, alguns de duração mais longa como Don L e Coro Mc estão presentes. É uma geografia – humana, social, sonora – que constitui o rapper, sua música, seu pensamento. Sua música está ancorada na cidade dividida e desigual, estereotipada em noticiários que penalizam as áreas pobres. Há décadas o movimento negro e o hip hop apontam a violência contra estas populações, particularmente os homens, sobretudo jovens.

Desde os seus primórdios o rap é dominantemente um discurso masculino, com algumas exceções femininas e, mais recentemente, de gays. É preciso atenção para essas falas de homens para homens que se chamam de irmãos, amigos, chapa, man, gente de bem versus os outros que são vacilão, vagabundo, bandido. Nessa elaboração da masculinidade, repleta de solidariedade, as canções apontam a necessidade de ficar vivo, ter sanidade e seguir em frente. Nas canções, as mulheres são citadas no horizonte comum do desejo, mas o quadro se reverte em Dois cofres, uma porta”. Arrisco dizer que, na trama entre letra e ritmo, é uma refinada canção de amor e dureza, bastante adequada ao universo do rap.

Quem vê as áreas urbanas populares somente da janela do carro (particular ou oficial), tem dificuldade de entender, não as letras, mas a experiência coletiva de quem às vezes está muito próximo geometricamente das áreas ditas nobres, mas socialmente distante. Este quadro é retratado e recriado nos videoclipes de Nego Gallo e de seus parceiros. Por meio de outras informações, é possível saber que há nas periferias distantes de Fortaleza uma cena de saraus e outro cenário do rap que faz arte e política por diversos canais.

A fé e a determinação de Nego Gallo estão expressas em várias músicas, na fotografia principal e nas demais divulgadas, realizadas por Antonello Veneri, onde o torso tatuado com símbolos de justiça e proteção se torna uma imagem inusitada frente a dos rappers e bboys usando jaquetas como armaduras, como diz o jornalista e escritor de HQs Ta-Nehisi Coates no livro Entre eu e o mundo.

A mixtape é cuidadosamente elaborada, cantada em português, pretuguês e inglês, línguas e linguagens de artistas cuja poética demorou a ser reconhecida por quem estuda literatura. Ritmo e Poesia. Rhythm and Poetry. Rap, trap, funk e reggae – trilhas sonoras transatlânticas negras, latinas, populares – é o que corre em cada faixa: “gravo a track / o mundo se move” (DVD).

Este texto foi originalmente publicado no blog do autor, em 14 de fevereiro de 2019.

Alex Ratts é arquiteto urbanista (UFC-1988), mestre em Geografia Humana ( USP-1996) e doutor em Antropologia Social ( USP-2001). É professor da Universidade Federal de Goiás, em Geografia e Antropologia.

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