Carolina Rebouças, a Cabocla

Carolina Rebouças apresentando-se em Fortaleza (Foto: Davi Duarte)

Aqui vai a transcrição da entrevista com a rapper, cantora e compositora Carolina Rebouças, que esteve na Rádio Universitária FM para contar um pouco sobre suas vivências no hip hop, nos movimentos sociais, na produção cultural independente.

Essa conversa foi gravada no dia 06 de junho e foi ao ar no dia 16, no programa Zumbi – O Rap na Universitária FM. Carolina Rebouças inclusive tocou algumas de suas canções ao violão durante a entrevista. Isso tudo está registrado no áudio, que pode ser ouvido dando um play mais adiante. Salve!

Thaís Aragão Ela é cantora, compositora, MC e mobilizadora cultural, nascida aqui em Fortaleza, e se fez crescendo lá na favela do Dendê, no (bairro) Edson Queiroz, né isso?

Carolina Rebouças Exato!

É verdade que você começou a cantar com dez anos? Parece que você já viu ali que poderia ter isso como um meio de vida, é isso?

Sim. Com dez anos, eu já comecei a cantar em casamentos. Já cantava acompanhada com piano, bateria e guitarra. E depois daí, já vieram outras experiências, com samba, pagode e forró.

E como isso se deu? Foi alguma coisa antes disso que já lhe despertou para música?

Eu tenho um tio – faz um bom tempo que eu não o vejo, inclusive – que se chama Herones. Foi ele que me impulsionou a fazer os primeiros acordes no violão. Ele é compositor também. Então já houve essa inspiração de casa, né?

Como era a vizinhança também?

Nós sempre fazíamos saraus, na escadinha da minha casa. Então, misturava a galera do rap com a galera do rock, e uma galera mais alternativa também. Sempre gostei de tocar MPB. Tocava com uma grande amiga, que agora faz parte de um grupo, que eu participo também, que é o Ghetto Roots. É a Gabriela Savi. Então, a gente sempre fazia esses saraus, esses momentos. Sempre teve aceitação da comunidade.

Carolina Rebouças integrando o grupo Ghetto Roots (Foto: Luiz Alves)

A Ghetto Roots era uma loja, não era isso? E virou uma produtora cultural…

Sim, começou com a lojinha de produtos, tanto da cultura rap quanto da cultura reggae. Então tinha beca, faziam tatuagens, faziam fachadas, trabalhavam com grafite e artesanatos. E aí, com o tempo, a gente viu que na economia criativa também cabia e necessitava ações culturais, principalmente com a música. A música chega em lugares que às vezes outras ações não conseguem chegar.

Quais foram as primeiras produções do Ghetto Roots?

As primeiras produções foram com “O primeiro luau”. Na verdade, essa música nunca foi ao ar. Tiveram algumas outras músicas. Uma delas foi “Meus passos”, com o Roni Flow, e depois daí a gente agregou a banda. Agora a gente está com processo de CD gravando, tá numa outra fase. A gente começou com sound system e já fazem cinco cinco anos que a gente está com processo com banda. Então é algo novo pra gente, apesar de já ter algum tempo. Mas é sempre uma descoberta, mais pessoas agregando à proposta. Mas tudo, mesmo, começou em meados de 2007.

Já faz um tempo.

Já tem um tempinho, já.

Quantos artistas em torno do núcleo?

No Ghetto Roots? Atualmente, nós somos quatro vocalistas. A banda são quatro. Tem um técnico de som, um diretor de palco e uma diretora executiva. Tem uma galerinha, aí.

A artista cresceu no Dendê, produz sua música entre o Ceará e Pernambuco, e já se apresentou na Europa (Foto: Jean R Cokin)

E as ações, provavelmente, não se resumem ao Dendê. Vocês vão para outros bairros, né?

Iniciou-se no Dendê, até por ser nosso local de origem. Mas a gente roda não só Fortaleza, mas também fora do Estado. Já fizemos ações inclusive em Brasília, no Rio, em Goiás…

Conta mais também como foi a experiência de cantar com nomes como Criolo, Racionais, Dexter. Tem vários nomes importantes do rap com quem você cantou. Em que ocasiões isso aconteceu?

Geralmente foram em grandes eventos aqui da cidade. Com Criolo, a gente fez abertura do carnaval de Fortaleza. Junto conosco, esteve presente VM na Rima, Andrezão GDS, uma galera que tem um trabalho bacana aqui na cidade, que tem um trabalho bem compromissado, e uma música boa também.

Vamos começar com palinha?

Vamos, sim.

Qual é o nome dessa música?

Ela se chama “Mais valia”.

O nome dessa música já é um conceito poderoso de um autor, de um filósofo [Karl Marx], que ultimamente tem sido bastante combatido nos comentários de internet. E às vezes a gente nem sabe se as pessoas têm conhecimento para estar se interpondo a esse tipo de teoria, de filosofia, que é tão densa. Então eu te pergunto: para fazer uma música como essa, você recorreu a livros, a outras pessoas? Como foi feita essa mediação, para você sair uma composição dessa?

Primeiro, eu fui atrás de fazer o meu próprio acervo, de pesquisar algumas coisas. Mas as minhas maiores influências vieram, de fato, da comunidade. Muitas vezes, a gente vive em função do trabalho. Não é feliz em casa, não é feliz com a família. Não temos tempo para nós mesmos e vivemos infelizes, por conta desse sistema que massacra a gente todo dia. E, por isso, as perguntas: “O que você tem para comprar? Quanto você tem para pagar? Com quantas cédulas o amor se pode comprar? Quanto você tem, para te avaliar?” Então, tu é colocada em xeque o tempo todo, pelos valores que tu tem na tua vida, e pelos valores que tu tem no teu bolso. E acho bacana a gente trazer essa reflexão para dentro também, sair um pouco de base teórica.

“Tu é colocada em xeque o tempo todo, pelos valores que tu tem na tua vida, e pelos valores que tu tem no teu bolso.”

Carolina Rebouças

Mas seu contato com Marx, por exemplo, como é que você teve contato com esses conceitos também?

Primeiro, através dos movimentos sociais. Eu sou uma pessoa que sou ligada aos movimentos há um bom tempo. Desde meus 15 anos, que foi quando eu tive contato com a cultura hip hop, que é uma cultura bem politizada e bem organizada, inclusive. Conversa com as pessoas, livros… Eu li um trecho do [livro] “O capital” e peguei alguns outros materiais de Marx e de outros filósofos, de outros pensadores que tinham essa linha. Enfim, eu acho que, apesar do conteúdo teórico, de fato, a vivência e a troca com as pessoas foi o que solidou.

Bom, já que estamos falando do hip hop… Você disse que teve contato com 15 anos. Como foi esse encontro?

Foi exatamente nos saraus, lá de casa. Eu conheci um cara chamado Roni Flow, que é também do Ghetto Roots. Nós cantávamos. Eu já tocava violão, já cantava. E ele chegava mandando uns freestyles. E eu ficava impressionada. “Menino, como é que o cara pega a ideia na hora e consegue desenvolver as coisas, com essa desenvoltura toda.” E, aí, o meu primeiro contato com o movimento foi tentando começar a fazer freestyle. E gravando. E depois daí, eu conheci um pouco mais os movimentos da cidade, os outros elementos, conheci a Nação Hip Hop. Sou dirigente aqui do Ceará pela Nação, que é uma organização, uma entidade nacional. E, enfim, o culpado de tudo isso foi o Roni Flow. (risos)

Como é que você vê os coletivos hoje na cidade, quando a cidade está também tão dividida, em termos de território, por conta da violência e tal, e essas divisões? Como é que isso afeta o trabalho dos coletivos?

A gente viu um boom, acho que no ano passado, dos eventos de rua. Principalmente, da galera do rap e do reggae. Houve alguns movimentos bem ostensivos por parte da polícia também, criminalizando esse tipo de ações. Eu acho que as pessoas, boa parte dos coletivos, voltaram a se fortalecer, até ideologicamente, por serem barrados de fazer as ações nas ruas, sabe?

Porém, houve uma profissionalização enorme de coletivos, por essas iniciativas individuais. Ano passado, a gente teve a oportunidade de participar de uma gestão compartilhada no Teatro Carlos Câmara. Eu falo isso como uma prova viva, né? Nós paramos boa parte das ações da nossa comunidade por conta dessas guerras territoriais. E a gente deu continuidade ao nosso trabalho devido à gestão compartilhada. Porque a gente não poderia fazer esse tipo de atividade dentro de nossas próprias áreas, como a gente imaginava e queria fazer. Então, acho que coletivos procuraram outras alternativas para não deixar que o trabalho não seja feito, mas que de certa forma acaba barrando as nossas ações.

(Foto: Rodrigo Bulldog)

“Houve movimentos ostensivos por parte da polícia também, criminalizando esse tipo de ações [eventos de rap e reggae]. Boa parte dos coletivos voltaram a se fortalecer por serem barrados de fazer as ações nas ruas.”

Carolina Rebouças

O que é a gestão compartilhada?

Foi a gestão compartilhada do teatro. Eram quatro linguagens e quatro coletivos de periferia, cada qual responsável por uma linguagem. O nosso coletivo, que é o Ocupa Cajueiro, lá do Dendê, era responsável pelas programações de hip hop, que eram toda sexta-feira. E gente sempre fazia uma formação no período da tarde e, à noite, tinha um evento.

Isso foi durante o ano passado?

Isso.

E tá rolando ainda isso, no teatro?

Não. Todo ano eles renovam edital para ocupação. A proposta que a gente sugeriu – e fomos aprovados – foi com a gestão compartilhada.

Como compositora, você acaba reunindo uma gama muito grande de influências. Você tem do rap, você tem do reggae, você tem da MPB. Funciona muito bem com violão, como a gente já ouviu aqui. Como foi reunir tudo isso, e como é que você vê a sua produção hoje?

Logo depois de voltar para cá (depois do intercâmbio que eu pude fazer em Estocolmo e Portugal, através de uma rede), eu senti a necessidade de focar não só em trabalhos coletivos, mas focar também no meu trabalho individual. Até porque você tem uma liberdade maior para compor, e até testar coisas novas. Aí, eu conversei com um amigo de Pernambuco, que se chama Ras Felipe, começando a criar um conceito chamado multicultural. E, daí, vieram algumas produções, com esse conceito. E o que seria, de fato? Misturar as influências da música urbana, mais especificamente o rap e o reggae, com  elementos da nossa música popular. Em Multicultural, tem trap com forró, sabe? E acho que vem muito dessa ideia de que a nossa raiz brasileira pode, sim, somar com elementos de fora e, ainda assim, ter sua originalidade.

Carolina Rebouças no Women in Reggae, no Maloca Dragão 2018 (Foto: Divulgação)

Multicultural inclusive é o nome do EP, que eu não sei se é o mesmo EP que você “só tem a capa”, que é um verso da canção “Desabafo”. Nela, você fala: “o sonho do EP; de pronto, só a capa”. É esse EP? Como é que está esse processo?

Isso. “Desabafo” inclusive está em Multicultural. Ela tá em remix. Eu lancei “Desabafo” numa versão mais acústica. Em Multicultural, ela vai estar com remix, de fato. Esse material, infelizmente… Houve um acidente. Então eu estou num processo de re-produção de todas essas faixas. E é até uma forma de eu me ressignificar, estudar coisas novas, ver novas possibilidades. Eu participei, há pouco tempo, das Audições do Porto [Iracema das Artes 2019 do Laboratório de Música] e fiquei entre os quinze classificáveis. Então, isso, para o meu trabalho, é muito importante – vindo de onde eu vim, fazendo o que eu faço, sabe? Tendo a oportunidade de conseguir uma bolsa numa escola de arte tão renomada, não só aqui no estado, mas em toda a região Nordeste… Eu acho que, até o fato de não ter esses materiais originais hoje em dia, por um acidente, trouxe as possibilidades de eu me ressignificar enquanto artista.

Então vai sair diferente do Multicultural que você pensou no começo?

Isso. Até porque eu agreguei, junto com o conceito multicultural, o nome Cabocla. Cabocla vem da minha essência, de fato. A família do meu pai é indígena. A família da minha mãe… Apesar de a minha mãe ter os traços de crioula, a minha mãe é branca. Foram a primeira sub-etnia existente aqui no país, por conta desse processo – primeiro de colonialismo, e depois de miscigenação. Então, o conceito é multicultural, mas a obra é cabocla.

Quando você fala desses acidentes que ocorrem nos projetos de fazer gravações desses trabalhos, quais são os desafios que a cena independente do hip hop (em Fortaleza, mais especificamente, mas a partir da sua própria experiência) tem que enfrentar cotidianamente, ao longo dos anos?

São vários desafios. Até o fato de ser um artista vindo da periferia já é um desafio e tanto. Tem uma letra em que eu cito isso: “Ato de coragem é viver de arte e até viver já é um teste”. A gente está lutando para sobreviver todos os dias e, querendo ou não, por mais que a gente burle esse sistema, trabalhar com arte ainda, para alguns, é uma visão muito elitista. Inclusive a visão do ouvinte. As pessoas, às vezes, têm um pouco de resistência quando a gente vai mais direta ao ponto. Eu tenho a sorte de encontrar pessoas, ao meu lado, que somam e que levam a coisa de que forma mais leve. Acho que, inclusive por agregar outros movimentos musicais também, há uma aceitação maior. Porém, ser moradora de periferia e fazer arte no Brasil é um ato de coragem e um teste diário.

(Foto: Anne @amariadomato)

“Por mais que a gente burle esse sistema, trabalhar com arte ainda, para alguns, é uma visão muito elitista. Ser moradora de periferia e fazer arte no Brasil é um ato de coragem e um teste diário.”

Carolina Rebouças

Conta para gente de uma situação específica que a gente possa ter noção disso.

O próprio processo do EP. Eu fui duas vezes para Pernambuco, gravei todo o material. A máquina deu pau e a gente perdeu dois anos de trabalho, sabe? Dois anos de investimento, de tempo, de sonhos. Então, a gente às vezes fica vulnerável a determinadas situações, por conta da limitação financeira e de uma série de outros fatores. Quem trabalha com produção independente, querendo ou não, pode correr esse risco.

Você falou que foi pra Suécia. Conta um pouco sobre essa experiência no exterior.

O intercâmbio foi através da Fundação Cepema. A gente fez um seminário chamado “Fala favela”, pela Rede Cuca. Foi no Cuca Jangurussu, em 2016. Nesse seminário, a gente juntou vários jovens, várias iniciativas, várias formas de protagonismo juvenil. E, daí, surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio. Fui eu, Roni Flow, Aurinete, o Fuzzy e o DJ Doido – mobilizadores culturais, agentes socioculturais aqui em Fortaleza que fazem trabalhos nas suas comunidades e que desenvolvem um trabalho importante para a cidade de Fortaleza.

A gente levou um pouco do nosso trabalho lá para Suécia. Conheci Estocolmo, que é a capital [da Suécia]. Conheci outros espaços também, lá, e conheci um pouco de Portugal. Foi um período um pouco menor em Portugal mas, ainda assim, muito rico. É importante também, até engraçado, poder perceber o pertencimento que eles têm com a cultura brasileira. Eu cheguei lá, a primeira vez, e estava tocando forró e sertanejo. E não era com o dialeto brasileiro: era o dialeto português. Então, eles pegam as nossas influências. É muito rica a influência brasileira no cenário europeu. Até na própria Suécia, quando escutavam a forma como a gente falava, eles identificaram que eram do Brasil. “Brasil, Brasil!” É bacana, bem bacana.

Deu outro patamar à nossa visão enquanto artistas. Pude fazer um lançamento em um pub, lá. E nesse pub estava tendo um tributo a Bob Dylan. Tinham pessoas de vários países fazendo um tributo a ele, e eu pude chegar com a música autoral e lançar em um espaço super inusitado para mim. Foi muito importante para o meu trabalho e, depois daí, vieram boas coisas.

(Foto: Té Pinheiro)

“Cabocla vem da minha essência, de fato. O conceito é multicultural, mas a obra é cabocla.”

Carolina Rebouças

Gostaria de perguntar para você, sem pressão, sem pressão, mas…. dá pra gente esperar faixas novas pra 2019?

Sim, sim. Esse ano, ainda. Estamos produzindo coisas novas. Nesse segundo semestre, já vem alguns materiais bacanas. Eu estou procurando trabalhar com a ideia de singles, antes do processo do EP. Porque, aí, tem como a gente viralizar e fazer um trabalho por faixa, mais individual, e as pessoas consumirem mais. Às vezes, quando a gente lança uma grande quantidade de faixas, as pessoas não têm esse trabalho mais individual, mais pessoal com a música. Quando a gente lança de faixa por faixa é mais fácil para as pessoas se identificarem com o trabalho.

Para encerrar o papo, como você vê essas questões LGBT sendo trazidas para o campo do hip hop? Nos últimos anos, a gente tem bastante desse tema, com muita mulher MC, o pessoal do Quebrada Queer, o Hiran, lá em Salvador… A gente tem um monte de gente trazendo esses temas. Como é que você vê o cenário com essas discussões?

Eu acho que, por mais contraditório e por mais questionador que possa ser, essa onda de conservadorismo que surgiu no país veio, de fato, para nos rebelarmos e darmos esse boom. Acho que a gente precisou, de fato, dessa onda de conservadorismo para que a gente pudesse colocar a nossa cara a tapa e colocar, de fato, as questões que a gente queria na rua. Muitos trabalhos surgiram a partir daí. Muitas parcerias, também. Apesar do cenário delicado que a gente tem vivido atualmente no país, eu acho que ele é crucial para as movimentações políticas que surgiram, também, contra toda essa onda retrógrada.

E o hip hop tá fazendo debate…

É protagonista, né? É protagonista desse movimento. Tenho o maior um orgulho disso.

______________________________

Escute a entrevista na íntegra, a partir de 1:00:50

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto:
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star