Carmen Camaleonte

Para a drag queen e rapper Carmen Camaleonte, ainda há muito a expandir sobre o que uma drag pode fazer (Foto: Reprodução/Instagram)

Nascida nos palcos da Rede Cuca e crescida no estúdio da C2F Records, em Fortaleza, Carmen Camaleonte é uma rapper que busca ampliar seus horizontes criativos como drag queen. Sua escrita, que costuma se dar ao entardecer, vibra junto das estéticas do vaporwave e do hip hop lo-fi. Confere a entrevista!

Thaís Aragão — Estamos hoje recebendo uma artista de Fortaleza que além de fazer rap, também faz drag. A gente tá bem feliz de ter Carmen Camaleonte para um faixa a faixa do seu novo EP, Orcário. Justamente neste dia do Orgulho LGBTQIA+, que inclui lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais ou transgêneros, queer, intersexo, assexuais e muitas outras orientações e identidades! Muito obrigada, Carmen Camaleonte, por topar esse papo aqui com a gente hoje, na Universitária FM.

Carmen Camaleonte — Olá princesas, tudo bom? Fico muito feliz com esse convite da Rádio Universitária pra fazer esse faixa a faixa do Orcário. Já tô super animada pra poder contar pra vocês aí as coisas nas entrelinhas, as letras e tudo mais, todo esse processo que foi o Orcário. Vai ser muito legal.

Vai ser ótimo a gente saber mais sobre esses sons, com você mesma comentando. Como é a primeira vez que a gente conversa aqui no programa, o quê acha de falar um pouco mais sobre como você começou no hip hop? Aliás, aqui vai uma curiosidade minha: o que você começou a fazer primeiro: rap ou drag?

Comecei fazendo drag. Há algum tempo eu me monto. Comecei fazendo dublagens, porque é muito da cultura da drag, né? Chegou um momento em que eu queria fazer algo que fizesse meu corpo pulsar mais, e aí tentei fazer dublagens de uns raps, e sempre sentia que podia ir além. Foi quando, numa apresentação, decidi assim, bem de supetão, que ia cantar pela primeira vez. Eu já escrevia algumas coisas, de poesia, mas nunca tinha cantado.

A primeira vez que cantei rap, não foi nem um rap meu. Foi uma música da Karol Conká, que eu botei numa outra batida. Cantei num ritmo, tipo… diferente. Fiz um flow diferente, e a sensação foi completamente outra. Foi como se eu tivesse de fato encontrado algo pra fazer com a minha drag. A minha drag agora tinha uma voz, ela tinha algo pra falar.

Depois disso, começaram as minhas composições autorais. Comecei a, de fato, colocar isso em batida e comecei os processos de escrever pensando em músicas. Foi isso que aconteceu inicialmente. Eu me monto há 3 anos, acho que parei de contar (risos). Só depois de quase um ano de drag foi que comecei a fazer rap, a escrever os processos do EP. O EP demorou um tempão pra ficar pronto, porque o processo de escrita e de toda a produção não foi linear. Acho que fui produzindo conforme ia encontrando recursos pra fazer essa produção. Por isso o EP demorou tanto pra sair.

O EP se chama Orcário e chegou às plataformas em abril de 2020. A produção também é de um estúdio daqui, da C2F, né? Como foi esse trabalho no estúdio, junto com as pessoas que fizeram os beats?

Incrível demais, a C2F! Encontrei o Mateus da Silva, que é o fundador da C2F, há um tempo, bem quando eu tava começando a produzir o EP. Na verdade, eu não tava nem pensando em produzir EP. Tava meio que fazendo rimas em cima de batidas em casa mesmo, e ele me chamou pra colar na C2F. Aí comecei a produzir uma música com ele e com Ardack [beatmaker ligado à C2F]. A gente não chegou nem a concluir esse processo de produção porque os caminhos me levaram pra outras coisas.

Quando retomei esse processo de produção, [entraram] na equipe, pra beats, a Leona Who, que é uma drag queen que também mora pelo Jangurussu, e o $ousa, que é um beatmaker maravilhoso. Dentro do estúdio, ficávamos muito eu, a Leona e algumas vezes o $ousa. [A faixa] “Orca” é do Ardack. “Afronte” é da Leona. “Grave” é beat do $ousa. “Jump the Catraca”, $ousa também. A última música, que é o “Orcário”, é um beat da Leona.

Eram muito legais os processos de gravar. Geralmente eu gravava à noite, porque era o momento em que me sentia mais produtiva. Leona ia comigo, às vezes. A gente ficava até tarde gravando, porque era mais divertido (risos).

Massa! Fala sobre a faixa “Orca”. Tem a ver com Orcário, que é o nome do EP e o nome da última faixa? Tem uma relação aí?

Sim, tem tudo a ver. Eu tenho a orca como animal de poder, e essa letra foi uma das primeiras que fiz, de fato, pra estar dentro de uma música. Ela tava noutro trabalho, outro processo, mas resolvi fazer ela pro Orcário porque senti que ela precisava abrir o EP. Sinto que ela é forte, ela é direta, ela é uma apresentação. Eu tinha esse beat que o Ardack produziu pra mim, aí senti que tudo encaixava: os sons das orcas, esse verso mais rápido, com a tirada bem mais rápida, dizendo muitas verdades e tudo precisava ser dito agora, já que você ia entrar no Orcário, entendeu?

É meio que “Oi, tudo bom? Você vai ouvir isso, então vou começar aqui dizendo como é que as coisas funcionam por aqui”. Gosto muito de “Orca” também por ser uma música muito curtinha. Ela não chega nem a ser um minuto, se você for contar — tirando umas partes do VHS e tudo mais. Traz muito essa estética do vaporwave, dessa sensação lo-fi. Ela é literalmente um verso. Sinto que é muito gostosa de ficar ouvindo e repetindo. Quando produzi a “Orca”, fiquei ouvindo e ouvindo e ouvindo, porque gosto muito de como as coisas são ditas nessa letra.

“Falo muito sobre a vivência de ser drag no rap, dessa feminilidade nessa cultura do hip hop, porque é muito nítido que os caras (…) são uma galera machista, homofóbica”.

Carmen Camaleonte

Carmen, a gente percebe que tem um tema aí, que perpassa todas as faixas desse EP. Você fala com outras pessoas, de certa forma afrontando mesmo, por algumas coisas que aconteceram. Fala um pouco mais sobre esse sentimento, que você vai tratando de diversas maneiras.

Sim, falo muito sobre esse processo de questionamento durante todo o EP. Especificamente sobre a música “Afronte”, deixo muito bem estabelecido o processo de botar o dedo na cara mesmo e questionar as coisas, e de afrontar literalmente aquilo que a pessoa tá fazendo, aquilo que ela tá falando, sobre a vivência que não é dela, entendeu? Então, é muito do “Enquanto tu tá aí falando merda, enquanto tu tá aí fazendo várias besteiras, vários nadas, eu tô aqui no meu corre, eu tô aqui tentando lutar pelo meu básico; então fica aí calado na tua e deixa eu fazer aqui, porque a gente não vai ficar aqui ouvindo as tuas merdas, que tu vai ficar bostejando aí”.

É muito sobre isso. É tanto, que a gente tem uma virada no final da música, onde eu falo a frase (que é assim, mantra, entende?): “Só abre a porra dessa boca para falar merda achando que eu tô aqui pra ouvir merda”. Assim: às vezes a galera quer ficar soltando aí umas opinião nada a ver, que não é nem opinião, e a gente não vai ficar ouvindo isso, entendeu?

Enquanto a pessoa tá ali com os privilégios dela, falando aí o que ela acha que é uma opinião, a gente tá tendo que fazer três vezes mais pra conseguir o básico. Então é de calar a boca mesmo, entender que tem uma galera fazendo aí o que tu já ganha de mão beijada. E falo muito sobre a vivência de ser drag no rap, dessa feminilidade nessa cultura do hip hop, porque é muito nítido que os caras que fazem essa cultura são uma galera machista, homofóbica, e você pode acrescentar várias coisas nessa lista. As gatas, as drags, os viados tão tudo fazendo um trabalho muito massa, e aí parece que a gente tem que se esforçar cem vezes mais pra que eles consigam, sei lá, dar o aval de que nosso trabalho presta. E a gente não precisa desse aval, entendeu? O nosso trabalho é forte, o nosso trabalho é foda, o nosso trabalho existe. 

Então quando afronto, eu também tô afrontando esse pensamento de que a galera vai sempre botar uma lupa no meu trabalho pra saber se ele tá bem feito, pelo fato de eu ser uma drag queen, de eu ser um homem gay fazendo algo que caras vêm fazendo há muito tempo. E a mesma coisa acontece com as minas. Os caras, quando vão ouvir um som de uma mina, parece que põem uma lupa, e agora eles vão tentar buscar falhas nesse trabalho. Então, vou afrontar mesmo esse pensamento, essa galera que tem esse privilégio aí. E é isso.

Vamos lá, Carmen, para onde vamos agora, pelo EP?

Com “Afronte”, a gente entra no miolo do EP. Porque a gente tem “Orca”, que é como se fosse um prólogo, e lá no final a gente tem “Orcário”, que é um epílogo. As três faixas do meio é como se fossem o miolo — porque a gata é conceitual, sim! A gente vai botar um conceito. E aí, depois de “Afronte”, vem “Grave”. Ela foi uma das primeiras letras que escrevi. Se “Orca” foi uma letra que escrevi pra pôr numa música, a música “Grave” veio, sei lá… quase que gêmeas, entendeu? 

Ela é muito pessoal, porque quando chego mais pros últimos versos, tem muito a ver com a minha mãe. Lembro muito da minha mãe quando fala: “Porque eu nasci de uma renascida colorida, exibida, cantarolando alto, buscando saídas”. É muito sobre essa vivência que a gente passa cotidianamente, de frustrações, entendendo a realidade da minha mãe, como a mulher que lutou pela vida dela todos os momentos.

Eu sou muito próximo da minha mãe, e aí acompanho de perto essa vivência dela, de ter mesmo essa garra pra tentar, com todas as forças, conquistar aquilo que é nosso. A minha mãe me ensinou muito isso. Então “eu controlei meus próprios medos, eu coloquei no meu peito, eu segurei minha alma alarmada de desrespeito”, entendeu? Tenho isso nas minhas mãos, foi-me ensinado isso. Trago muito em “Grave” todas essas questões de busca pela essa libertação, desse interno que se externaliza.

É uma música muito forte. Adoro cantar ela nos meus shows. Toda vez que canto “Grave”, parece que ela pulsa de uma forma diferente, entende? Se eu tô muito mal, quando entro no palco eu sinto que essa música sai de uma forma… Eu gosto muito de “Grave”. E fica aí uma mensagem, né? A gente tem esse poder sobre nós mesmos. A gente consegue, sim, dançar dentro do nosso próprio eixo, satisfazer os nossos próprios desejos. A gente tem essa força pra ir à luta e conseguir aquilo que é nosso. “A gente se levanta inteiro e parte pra mais um desfecho, e vai pra mais outra guerra”. Porque a vida é isso, ela é esse movimento, e a gente tá constantemente tendo que travar essas lutas, e a gente vai vencer cada uma delas.

Carmen, fala sobre a capa desse trabalho. Tem um desenho bem interessante. As cores, também.

Sou simplesmente apaixonada por essa capa, demais! Ela é a minha idealização. Quando pensei em fazer essa capa, falei com o Isaac Azevedo. Dei as ideias e o Isaac colocou em prática. Eu disse pra ele: “Olha, eu quero orcas, eu quero vibe vaporwave, eu quero lo-fi, eu quero estranho, ao mesmo tempo”. Dei várias referências. A gente conversou muito e chegou nessa finalização, que eu simplesmente amei.

A capa traz todas essas referências que estão na sonoridade do EP. Essas duas orcas são como uma representação meio ying yang. Parece um santuário, esse orcário, onde trago todas essas letras, todas essas vibes, pra que a pessoa consiga absorver o que precisa ser absorvido. Na testa, tem um símbolo de Aquário, que é o meu signo. Tem um sol em degradê atrás, com esses tons mais frios. Dos dois lados, tem o meu nome e o nome do EP, em japonês. Eu realmente amei fazer esse trabalho com o Isaac. Fiquei muito satisfeito com a finalização. Mais lá pra frente, a capa que tá no Spotify vai ter uma alteração. Aguardem essa atualização de capa no Spotify, que vai acontecer.

Ai, meu Deus! Eu já vou guardar essa aqui que eu tenho (risos) pra poder depois comparar. Já que a gente tá falando da capa, que tem essa estética do vaporwave e do lo-fi, fala um pouquinho pra gente o que te chama atenção nessas duas vertentes. O que elas trazem pro seu trabalho? Por que a sua maneira de se expressar casa com essas duas vertentes, que são bem novas no hip hop?

Eram duas estéticas que estavam bem presentes nos processos de escrita. Ainda escuto muito [hip-hop] lo-fi pra escrever e tudo mais. Principalmente o vaporwave, ele traz muito essa vibe retrô, meio dream, meio questionadora sobre questões de consumo. Quando trago essa pegada meio retrô do vaporwave, eu entro também numas batidas do hip hop mais 90, mais 2000.

Eu gosto da estética, entende? Gosto de como as coisas soam meio distorcidas, meio VHS, meio fim de tarde, ou então alta madrugada. E como o meu processo de escrita também era muito no processo da noite ou no entardecer, ou até mesmo os meus processos de gravação eram à noite, isso fica muito presente.

O nome Carmen Camaleonte tem influências da língua italiana e de uma música da cantora norte-americana Lana Del Rey (Foto: Divulgação)

“A gente tem essa força pra ir à luta e conseguir aquilo que é nosso. A vida é isso, é esse movimento. A gente tá constantemente tendo que travar essas lutas, e vai vencer cada uma delas.”

Carmen Camaleonte

Vamos pra frente? Vamos “Jump the catraca”?!

Nossa, acho que a história de “Jump the catraca” tá muito mais no título. Peguei umas viagens com esse nome, de pular a catraca, jump the catraca. Antes de eu fazer drag, de fazer rap, eu queria porque queria que existisse uma música chamada “Jump the catraca”, porque achava o trocadilho “jump, pular, a catraca” muito divertido. E aí eu disse assim: “Eu posso criar essa música, como assim?!”. Aí fui e coloquei o jump the catraca. E a letra é, como todo o EP, um dedo na cara mesmo, apontando, né? “Você bateu de frente, nem pensou direito e já caiu; tu nem falou e tua cara já se partiu”. Então é assim né? Não tenta, porque não tem espaço pra você aqui, entendeu? É muito de poder pessoal, dessa força.

Quando eu me monto, principalmente quando já estou montada, quando termino de me montar, eu gosto muito de ouvir as minhas artistas rappers femininas favoritas. Era um processo: eu estava toda montada e gostava de me amar no espelho, de estar pronta, ali com as unhas enormes, com o meu cabelo muito bem colocado. Quando faço uma letra assim, espero que, quando as pessoas escutem, se sintam tão poderosas como eu me sentia, quanto eu me sinto ouvindo outras rappers. É muito desse poder.

Há tantas referências que trago na construção, na interação… “Imersa nesse Orcário de revolução”, Orcário que é isso tudo, e toda essa revolução de se sentir poderosa com essas letras, com essas mensagens, trazendo essa força, se sentindo tão perigosa quanto uma bella donna e uma comigo-ninguém-pode. O jump das gatas nos busões, o jump das gatas nos jobs, conquistando o nosso espaço.

Trabalhar nessa faixa com o $ousa foi incrível. Quando trago referências e ideias pra ele, a gente consegue trabalhar muito bem. A nossa comunicação era fácil, fluída. Foi muito divertido o processo de criar o beat. E mais divertido ainda de gravar na C2F, com o Mateus e a Leona em estúdio.

[“Jump the catraca”] já é a penúltima música do EP, e fecha com uma felicidade, com uma sensação de mexer o ombro, se liga? Quando você tá cantando aqui e você tá mexendo o dedo e tá mexendo o ombro? É essa sensação. Ela é muito divertida, é o que eu esperava de uma música chamada “Jump the catraca” (risos).

A gente tá vivendo um panorama de pandemia, então tá todo mundo esperando o melhor momento pra voltar às atividades artísticas junto com o público. Mas fala sobre esse momento anterior. Quais são os palcos que você tem pra fazer drag, e também pra fazer rap eventualmente? Como é fazer essa mistura entre essas duas expressões, no seu trabalho de Carmen Camaleonte, rapper?

O meu palco principal, que foi onde nasci enquanto artista, é a Rede Cuca. Outros espaços são oportunidades que vou encontrando, as pessoas vão conhecendo o meu trabalho. Se já é difícil as pessoas consumirem arte drag, fica ainda mais complicado quando as pessoas consomem arte drag e consomem rap junto. E uma das coisas que mais questiono é quando as pessoas tendem a se sentir desconfortáveis enquanto escutam uma drag queen fazendo rap, e ela não fala só sobre ostentação.

Quando a gente fala muito sobre o nosso poder pessoal, enquanto drag, é muito foda, é muito massa. Mas quando a gente começa a apontar as questões que a gente precisa trazer pras essas pessoas, elas já começam a se sentir já um pouco desconfortáveis, e aí tendem a não consumir tanto. E aí, é isso, entendeu? Ao mesmo tempo em que eu tô enaltecendo a nossa força, também tô questionando as outras pessoas. É uma complicação, né? Porque, enfim… pessoas.

Mas toda vez que subo no palco e canto minhas músicas, interajo com as pessoas, tenho um feedback maravilhoso. Eu me apresentei no aniversário de cinco anos da Rede Cuca, na Praia de Iracema, para milhares de pessoas, e eu não era nem um pouco conhecida. (Eu não sou, tipo, muito conhecida.) Então esperava que as pessoas fossem interagir muito pouco. Assim que subi no palco e comecei a cantar, do nada, várias pessoas [apareceram] na frente, super interagindo comigo. Fiquei meio que desnorteada. É muito real que as pessoas se veem na minha narrativa, entende? Quando acabou o show, várias pessoas vieram falar comigo, e percebi que é muito real o que eu digo e como as pessoas escutam. Toda vez que acabo um show, vêm várias pessoas falar comigo, então é incrível, é uma sensação maravilhosa.

A gente tem muito o que avançar ainda enquanto arte drag, em como as pessoas vão enxergar a arte drag, de não pôr a drag numa caixinha de dublagem, somente. Existe, sim isso. E é incrível as pessoas que dublam, mas para além disso existem muitas outras coisas. Tem a música, a gente tem a literatura, a gente tem drags que podem fazer tudo, [ser] estilistas. A gente tem muitas possibilidades. É muito incrível ver todas essas leituras da arte drag.

É uma coisa maravilhosa também quando as pessoas veem uma drag fazendo rap. Tipo: “Nossa, juntou duas coisas que eu amo! Amo ouvir rap, e amo arte drag, então tenho duas coisas aqui”. É muito legal pensar drag fora da caixinha, do que as pessoas entendem por drag.

A última música tem o nome do EP, Orcário. Fala sobre ter colocado o mesmo nome no EP e nessa música, e sobre o fato de ela vir ao final. E também não deixa de falar pra gente por que esse seu nome, Carmen Camaleonte.

O “Orcário” é uma despedida. Como eu disse, tem o “Orca” que é um prólogo, tem as três faixas que compõem o miolo, e tenho o “Orcário”, que é um epílogo final, um até logo, talvez. Ele é uma despedida. Quais foram as tuas percepções? Pra ti, o que é o “Orcário”? Sobre o que tu acha que eu falo nessa música?

Bom, vamo lá. Pra mim, é um lugar onde você guarda coisas sagradas, coisas que não precisam ser coisas materiais. Agora, claro, a relação que tem com a orca, com a baleia, aí fica um pouco mais misterioso. Mas faz parte, o mistério.

Sim, é o lugar sagrado, é a finalização de um ciclo. É muito sobre despedida. E quando comento sobre a partida, a ida, eu falo literalmente sobre o momento onde o sol se vai, que era muito presente nos meus processos. Eu geralmente fazia processos de escritas quando o sol tava indo embora, não sei por quê. Sempre tava muito cíclico, isso. E Urano, o regente [do signo] de Aquário, também tem simbologia.

Essa tinta preta era os processos de escrita manual, com caneta. À vezes, quando acabava de escrever, os meus dedos estavam sujos de tinta. É tudo muito sobre o processo de escrita, sobre o processo de vivência disso, de despedida do sol, e de saber que amanhã tem um outro dia. Esse Orcário se transformou nisso, nesse santuário com essas coisas que eu trago muito do meu íntimo pra colocar no EP. E aí, chega um momento onde isso se vai, esse sol se vai.

Eu tenho a orca como animal de poder, de forma bem espiritualizada mesmo assim. Quem se liga em xamanismo tem animais de poder. Eu me identifico, em certa instância, com a orca. Muito do processo da Carmen [é] com a orca. Talvez [seja] a letra que tenha mais simbologia. Ela é a finalização, tanto que quando a Leona trouxe esse beat pra mim, ela falou assim: “Ei olha esse beat aqui, ele tá pronto. Tu quer dar uma ouvida?”. E aí eu: “Nossa, encontramos a última frase. É o ponto”.

Ela traz essa vibe mais melancólica, essa coisa mais de se esvair, entende? Tipo, está indo… Até gravar ela foi um processo muito interno. Eu costumo cantar mais interagindo, e essa cantei de olhos fechados, porque é muito interna. Ela é um santuário mesmo, um orcário com várias orcas e todo esse poder.

E esse nome “Carmen Camaleonte”?

O único nome que eu tinha certeza era Carmen. Decidi por ele porque acho o nome curto, bonito. Eu escutava muito Lana Del Rey, e ela tem uma música “Carmen”, Me soava atual e antigo. Eu sempre trocava o meu sobrenome, porque não encontrava um que se adequasse à minha imagem enquanto drag. Estudo italiano, faço Letras Português-Italiano na UFC.

Pensei em Camaleonte, [que] é “camaleão” em italiano, e [pensei] nesse processo de troca, de se camuflar. E [a pronúncia] não é nem Camaleontchi: é Camaleontê. Mas pode chamar de Camaleontchi, que tá de boas. Gosto também de começar com “C” e ter outro “C”. [Gosto] de como esse nome junto lembra moda, também. Foram essas referências que eu trouxe pro nome: de moda, e do animal camaleão, mesmo.

Orcário” é a faixa que conclui o EP de mesmo nome, de Carmen Camaleonte. São cinco faixas que podem ser ouvidas nas plataformas digitais enquanto a gente não tem show da Carmen. Muito obrigada, Carmen, por essa participação tão especial num dia como hoje. A gente vem tocando muito seu som, principalmente “Grave”, que pra mim é um ponto alto no EP. E mande sempre notícias!

Eu que amei explicar cada processo do Orcário pra vocês! Fico muito feliz de saber que vocês tão viciados em “Grave”. Eu também não canso de ouvir, fico escutando o EP em loop. É isso, me sigam no Instagram @_carmencamaleonte pra vocês terem mais informações de futuros trabalhos. E vamos esperar essa quarentena acabar, tudo ficar bem, pra gente ter shows, pra curtir o Orcário nos palcos. Porque ainda não tive oportunidade de cantar ele nos palcos, mas vai rolar. Inclusive, vão rolar lives e outras coisas. Agradeço muito o convite da Rádio Universitária com esse faixa a faixa. Foi maravilhoso. Até uma próxima gente! Beijo, beijo, princesas.

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Escute a entrevista na íntegra, a partir de 29:49

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