Caiô: ser Original Fortal é resistir

Vocalista e compositor fala do primeiro álbum da banda OutraGalera, intitulado Original Fortal Foto: Tainá Cavalcante

Quem acabou de lançar álbum de estreia, super aguardado, foi a OutraGalera. Original Fortal é o nome do disco, e com um nome desses não dá nem para esconder de onde ver a OutraGalera. São dez sons dessa banda formada por Caiô na voz e guitarra, por Agno César (o Agê) no teclado e no trompete, Glauber Alves no baixo e Beto Guibbs na bateria. Em áudio e texto, aqui vai a entrevista que fizemos com o Caiô sobre essa produção!

Thaís Aragão — Hoje a gente tem a satisfação de receber o Caiô! E aí, Caiô. Tudo certo? Satisfação em ter você aqui com a gente!

Caiô Salve, salve galera do programa Zumbi. Salve, salve Thaís. Tudo certinho, vamos nessa aí. Salve, salve!

E aí, como é que tá sendo essa primeira semana de disco na praça?

Tá sendo muito massa. A gente soltou o disco na sexta-feira [06 de agosto]. Tem esse lance de vir várias coisas nas plataformas de streaming e tal, vários lançamentos. A expectativa da gente era de botar a galera pra escutar. Mas além da expectativa de estar saindo um som que tem uma gente que tá esperando, tem a expectativa da gente também. A gente, sabe, pô… tirou um pesão das costas. Um ano e meio trampando, mais de um ano e meio. Uma pandemia rolou, pra impactar mais ainda o processo, mas o disco tá aí. Sensação esquema jogador de futebol depois do jogo, né? Dever cumprido, três pontos pra casa. [risos]

Um ano e meio de produção do disco. E quanto tem de banda pra trás? Como é que começou a OutraGalera, quando foi que vocês se encontraram?

Pois é, né? O tempo pra trás assim é um lance mais pessoal. Tem a ver comigo, porque o disco se trata das minhas composições falando – a maioria delas – em primeira pessoa. Então eu tô narrando boa parte das coisas que tem acontecido comigo, Caio, com a minha pessoa. Tem composições aí que vão de mais de dez anos atrás, sabe? Eu vou fazer 29 anos, então tem composições de quando eu tinha 19, 18 anos, ainda. Mas, por conta de muitos processos que a gente entende, não puderam ser gravados naquele momento e acabaram virando outra coisa.

O encontro do OutraGalera se dá, como grupo, em 2017. Mas, antes disso, eu já ficava elaborando as maluquices sozinho, desenvolvendo uma pesquisa na cultura digital, que era uma coisa que eu tinha muito curiosidade. Então comecei a mexer em alguns programas de celular, iPad e tal, Garagem Band, essas paradas. Num ensaio de uma banda em que eu tocava, vi o Gláuber [Alves]. Já conhecia ele da Luiza [Nobel], a gente já se trombou.

Tem esse lance da gente fazer parte duma cena de Fortaleza, em que encontra os músicos, a galera da cultura. E o Gláuber ficava enchendo o saco: “Ei, má! Eu vou tocar o Pris”. Que era um disco, um EP que eu fiz antes dessa fase. Um lance mais acústico que eu gravei com o Marcos Aurélio, que é do Casa de Velho e que trampa com o Agê também. E ele ficava enchendo o saco. Só que eu já tava em outra viagem. Aí, o bicho: “Ei, cola lá em casa, que tem uma JBL”. Aí tinha uma caixinha JBL deste tamanho, e ele achava que era uma JBL gigante. [risos] Eu sempre conto essa história.

Aí depois ele falou do Agno. Aí, eu: “Agno, Agno? Quem é Agno?” O Agno era amigo do irmão dele, de infância. Ele é um pouco mais novo do que eu. A gente sempre se encontrava nos rolês, mas eu não associava, porque era o pivete com quem eu tinha estudado no colégio, tipo essas coisas, né?

A gente encontrou essas três cabeças mais ou menos em 2017. Só que, antes disso, tinha esse percurso de ficar se trombando, de ficar comentando sobre um, sobre outro. Em 2017, a gente se junta lá pro meio [do ano]. A gente grava, eu acho que o Se Passando [Nota do Zumbi: o Se Passando.REC Apresenta foi um projeto de Ivan Timbó com apoio da loja Oito Polegadas]. Não lembro de se foi em 2017. Acho que foi em 2018. E a gente faz uma primeira apresentação, acho que em outubro de 2016, mais ou menos por aí. Aí, a gente começa a pensar. Ainda era um outro tipo de pesquisa, envolvia muito do que eu tava fazendo, mas já direcionado pra umas paradas voltadas pro hip-hop, pro reggae, pro dub.

E é Caio, ou Caiô?

É os dois, né? É Caiô pra galera das artes. Caiô, pra mim, é mais quando eu tô trocando ideia e mostrando essa persona artística. Mas não é um personagem, não. É mais como uma galera, uns e outros, me conhecem mais, tá ligado? Geralmente “Caio” é próximo, pra mais proximidade.

Você falou de cena, né? Tem uma música sua que tá no Original Fortal, “Alegria Amarela”, que saiu em 2014 com a Lorena Nunes. Tem várias movimentações que fazem realmente a gente pensar que é uma cena, porque as pessoas estão se relacionando ao longo dos anos, compondo junto, fazendo participações. É uma nova cena? E o que ela tem de novo?

Eu acho que é novo, sim, mas porque tem gente nova fazendo, gente jovem. Gente muito mais jovem do que eu, inclusive. Pra uma galera, a gente já tá virando cringe, coroa, tá ligado? E olha que eu não fiz nem 30 anos ainda, né? Mas hoje o tempo é muito mais rápido, é líquido. Então talvez já tenha é uma nova cena aqui. Mas a gente está se relacionando nesses últimos dez, vinte anos, com a galera que já vem antes da gente. Isso é comum no mundo todo, na arte. É comum os lugares, o espaço, o meio alterar nas produções artísticas e isso influenciar.

Mas acho que, dentro do OutraGalera e do OutraGalera Original Fortal, se observa um recorte específico, de pessoas específicas, de artistas específicos, dentro dessa cena de Fortaleza. E que tem uma preocupação, sem ser uma coisa muito careta, muito amarrada, mas com o discurso, sim. Com pautas de movimentos sociais, muitas delas. E sobretudo, acredito que talvez… eu vejo como novidade, mas acho que porque eu faço parte. A gente tem isso, de artista, de achar que tá fazendo uma coisa nova e tal.

Mas acredito que a música negra cearense, ela tá sendo vista, nesses últimos tempos, como talvez não tivesse sendo… E ainda tá pouco, né? Não é uma coisa que a gente “pronto, relaxa”. É isso. Eu acho que tem uma preocupação, sem ser careta, dessa galera que se relaciona dentro desse aspecto do Original Fortal, das coisas da Luiza [Nobel], do Mateus Fazeno Rock, o próprio Assum, DJ Nego Célio, Má Dame, Mumu. Tem uma galera. E nova.

Tem uma galera nova, mas tem uma galera também que já não é tão novo assim, mas que influencia, foram influenciados por outras pessoas, por galera de maracatu, galera de banda de rock também de Fortaleza que já faz isso há uma… Acho que é talvez é pretensão da gente, artista, falar que essa parada é uma parada nova, sabe? Mas é uma coisa que tá acontecendo, e acredito que vai acontecer muito mais ainda.

“A música negra cearense está sendo vista, nesses últimos tempos. E ainda tá pouco!”

Caiô, da OutraGalera

O nome OutraGalera tem a ver com isso?

Tem, tem. O nome OutraGalera já rolava com essas músicas que eram… Era uma coisa que veio nessas lombras mesmo, tem outro nome não. Curtição por aí: Benfica, os lugares que a galera tava fazendo as boemias por aí, os enxames. Vinha disso, da pesquisa ser coisa meio beat. O cara vai vivendo as loucuras e vai percebendo que, naquela viagem ali, tem uma base, uma pesquisa musical, tem uma estrutura a ser montada, a ser seguida e tal.

Então o nome de OutraGalera vem disso também, de não ser a mesma galera que tá fazendo a cena. Ficar um lance hegemônico, galera na mesma… Vem disso, de ficar um pouco insatisfeito, um sentimento de satisfação. O nome é um trocadinho, sei lá. É uma brincadeira também. Todo mundo se sente outra galera um dia, né? Não é uma coisa só de Fortaleza, sabe? O nome tem a ver com se sentir uma outra galerinha em algum canto, sabe? Tem isso.

E ao mesmo tempo é Original Fortal.

É. Pois é, o Original Fortal também é disso. Nas músicas, a galera vai falando e, quando tu vê, no meio da viagem já tá tendo uma pesquisa cultural, musical, sobre aquela besteira que tá todo mundo falando ali. Mas a gente encara essa besteira como um trabalho muito sério.

A gente comenta muito aqui no programa que Fortaleza é muito regueira. Às vezes as pessoas de fora talvez nem saibam o quanto a cidade é regueira também. Isso fica um pouco claro em álbuns como o do Nego Gallo, que é um álbum que ganhou projeção como um dos melhores do ano de 2019 no campo do rap, e você sente ali várias inserções do reggae.

Antes mesmo do álbum, o Gallo já tem essa relação.

Exatamente. Fala sobre a experiência de vocês nesses lugares do reggae na cidade e conta também um pouco como é que o reggae e o rap se relacionam em Fortaleza.

A experiência da gente tem até história legal. O Agno, por exemplo, é um maluco que não frequenta muito. Eu também não frequento muito, não sou muito de sair tanto assim, principalmente agora. Mas o Agno também não frequenta muito esses espaços. O Glauber já [frequenta] mais, já vai. O Beto e outras pessoas que se relacionam nas partes de beats. Das equipes que se envolvem com a gente, também tem uma galera que que curte os espaços. Eu mesmo já fui muito. E tem uma relação de processo de ensino e aprendizado desses cantos onde tem muito DJ, tem muita gente rasta, tem muita gente trocando coisas dentro da cultura mesmo. Acho parecer ter alguns aspectos, sei lá, a ver com a ilha mesmo, com a Jamaica, de ser um lance praiano, de sol, sol quente.

Acredito que Fortaleza tem uma relação também com o Maranhão, com pessoas, com essa cultura. Porque é diferente do que rola em SP, mais pra lá. O jeito que a galera consome não é o jeito é a gente consome reggae aqui. A Bahia também parece também um pouco assim. A galera tem as radiolas, aqui. A gente vai para os cantos ver os DJ tocar, botar os vinis, tá ligado? Para uns cantos tem muita banda. Um pouco mais para baixo tem muita banda. Também tem esse processo de gente que bota som do vinil.

Caiô: “O rap e o reggae caminham juntos, como uma maneira de democratização dessa música moderna. Elas coexistem no mesmo espaço.”

Acredito que Fortaleza tem essa relação com o processo de ensino e aprendizado mesmo. E também esses lugares que acontecerão aqui em Fortaleza, tipo o Reggae Club, lá na [rua] José Avelino, que agora mudou de nome. Eu nem me inteiro muito bem como é que tá agora. Mais novo, agora, a gente tem a Jamrock, que é um canto que, porra, tem uma galera que vai com esses processos dos DJ, da galera ir para escutar reggae. Vai a juventude, vai uma galera lá, sobretudo de periferia, pra ouvir. Não só de periferia, mas grande parte vem desses lugares afastados para escutar essa música jamaicana, duma ilha. Por algum motivo a galera tem essa relação.

Eu ia falar de outra parada também… Sim, do Canto das Tribos, que é uma parada que foi muito importante aqui em Fortaleza. Eu nem vivi isso. Eu era muito pivete, mas ouvi falar. Os malandros mais velhos, meu tio, a galera ia. Não rolava só isso, mas era um ponto de encontro. A geração quando eu era adolescente, a gente ia para a Ponte Metálica tocar violão e beber vinho. Era outra viagem, mas teve uma geração que tinha esse lance, sim, essa relação com reggae. E rolava em outros cantos. E na minha galera do bairro tinha uns cantos também que a galera ia, tipo ali pra Parangaba. Então eu acho que a música reggae aqui em Fortaleza tem uma relação com esses processos de ensino e aprendizado envolvendo o trabalho desses caras, dessa galera que tocou e tocam nesses espaços, oferecendo lazer pra uma galera.

E não sei citar o nome de todo mundo, quem é. Mas tem desde pessoas que fazem esses eventos em bairros, pequenos, em vielas, em coisas comunitárias, a gente mais conhecida. Tipo, estava citando o DJ Canuto Lion, que é pra mim é uma referência. Tipo a galera do Dub Foundation [Sound System], o Bruno da [loja de discos] Oito Polegadas, uma galera. Tem uma galera que faz som reggae aqui também.

Em Fortaleza, a gente tem bandas que fizeram isso antes da gente e que influenciaram, pô. Tipo Dona Leda, o próprio Assum mesmo, o Frank Luz, que é um cara muito excepcional, muito respeitado dentro da cultura no Brasil. Uma banda que misturava isso e que me influenciou muito, que era uma banda do Ivan, era o Samba Hemp Club. A galera já misturava mais. Tem um cara também que me influenciou muito na maneira de como pensar a música reggae dentro de qualquer coisa, porque o cara trabalha com tudo, que é o Pepeu. Então tem essa relação desse processo de ensino e aprendizado pra mim, como eu me relaciono com isso, e também com os espaços que eu frequentei. Acredito que os meninos também têm disso, de pesquisa. O Agno, a galera, né?

Pra falar um pouco dessa relação do reggae com o rap, eu penso que tem um lance pessoal pra gente, mas tem um lance de pesquisa mesmo, dentro da música. Tem uma relação direta. O rap, de um ponto de… Err… Eu não vou me comprometer com nada, também, assim, mas, mas… [risos]

Pode falar. Pode falar.

Mas o rap vem da Jamaica, né, galera? Eu não posso também ficar falando aqui que…

É tipo um sobrinho, um neto.

É, a galera fala isso.

Dá pra dizer que o rap é devedor da cultura jamaicana.

Porque todo mundo sabe que nasceu lá em Nova York. DJ Kool Herc… o nome dos DJ eu não sei falar. Grandmaster Flash, essa galera. Todo mundo tem esse entendimento aí. Mas se você for observar a música jamaicana, era uma coisa que já tava rolando lá, tá ligado? Já era uma parada que já tava rolando, e talvez já era uma coisa que talvez tivesse rolando era aqui também, saca? Aqui no Ceará, com forró, com outras viagens. O Kerensky [Barata] é que fala muito e falou isso pra mim, um dia, e eu peguei essa viagem: que a música moderna do mundo nasce na Jamaica, cara. O pop, o rap, o drum’n’bass, tudo que vier aí depois, de música digital, ela vem da Jamaica, dessa democratização que teve na Jamaica.

Eu acho que Fortaleza vive um momento parecido. Tem muita gente com interesse em produção musical, muita gente com interesse em rap, mais especificamente, não diretamente no reggae. E acho que o rap e o reggae caminham juntos, como uma maneira de democratização dessa música moderna. Elas coexistem no mesmo espaço. Às vezes, tem muita gente que não relaciona. Às vezes, aqui no Brasil, tem muito o lance do reggae ser associado a cachoeira, a surf, né? Que não é paia, não! É massa também, é irado. Mas parece que o rap virou aquela parada de contestação social e o reggae virou uma parada de hippie, de festa. E eu acho que tem uma relação bem próxima das duas coisas. O próprio grime, essas paradas jungle que a galera tá curtindo hoje em dia aqui no Brasil, garage e tal. Tudo vem da música jamaicana.

E o rap aqui em Fortaleza, pessoas como o Gallo, o próprio Célio, Caio Plock… Vixe, “n” pessoas já fazem. O Coro, né? O Jonas [de Lima], produtor exímio, tem essa relação lá do pico onde o maluco morava, lá na Barra do Ceará. Você vê a Barra do Ceará nos beats do bicho. Então, máximo respeito a toda essa galera que já faz esse negócio antes da gente, das pesquisas da OutraGalera.

Nesse disco do Original Fortal, tem até uma galera [que diz]: “Vixe, crl, vocês fazem um som mais rap, soltam uns mais rap e outros mais reggae”. Esse disco foi todo mais para a linguagem gravada de banda, como se a gente montasse os riddim, montasse os beats com banda instrumental, os reggaes, e músicas mais melódicas, melodias e tal, do que coisas mais rítmicas que a gente soltou antes, com beats do Manicômio, com beats do Barata.

Mas também acho que é pra isso, pra cutucar, sabe? Colocar esse questionamento, galera, de que música jamaicana é massa. É uma parada que é influente pra dentro da cultura do rap brasileiro e do mundo, certo? Tem pessoas que já fizeram isso aqui no Ceará, como o Gallo e outras pessoas, e também no Brasil, como Black Alien, Sombra, uma porção de gente, de produtor. Todo mundo se aventura. [Daniel] Ganjaman, Bid, uma galera. O próprio Chico Science já alertava todo mundo aí, Nordeste! É isso aí.

Muito bem lembrado. A sonoridade do disco do Gallo é o Coro, o Jonas de Lima, né?

Isso, isso. Fodástico.

Esse disco é maravilhoso. Fala também das parcerias para o Original Fortal. Fala um pouco da galera que chegou junto na produção e também nas participações.

Show, show. Aproveitando esse lance de falar do Nordeste, falando do Chico, dessa galera, teve uma escolha de um som pra fazer um remix, que foi uma espécie de citação, um remix meio diferente. A gente não pegou nenhum elemento da música do cara, a não ser a própria letra, e citou ela. É o Sacal, que é um rapper e produtor paraibano. Fez história e faz, nessa real brasileira aí, Ragga BR. Não tem pra outros, não. É dele, aí. E essa música, “Eu e Eu”, me marcou muito. Tenho uma relação direta com a Paraíba, também. João Pessoa, Campina Grande. Sempre tive uma relação legal com essas duas cidades e uma hora bateu esse disco do Sacal. Nem sei, nem lembro quando.

Mas escutei essa música “Eu e Eu” e, no processo do Original Fortal, fiz uma versão dela. A galera achou massa. A gente botou nas quinze, dezoito faixas que a gente levou pra fazer guia. Teve uma implicância no começo, porque a gente não sabia definir como é que a gente ia fazer nela. Mas tal hora, tive a sacada de chamar o Eric Barbosa, percussionista, músico, artista sonoro, que faz várias paradas com artesania sonora também, cara massa daqui de Fortal. E ele topou. Então ele tocou junto com o Rami [Freitas] e a música ficou uma mistura massa. Tem elementos de vários ritmos, e a gente traz pra nossa originalidade, né? Escrevi uma letra em cima da letra do Sacal e troquei ideia com o bicho, assim, coisa de fã: “Ô, mano. Caramba, pago um pau pra caramba pro teu trabalho, aí queria fazer isso.” Aí ele: “Vai, aplica.” E a gente gravou e colocou, né?

E de participação, a gente tem a Luisa Nobel. Luiza é uma amiga minha de infância e tem uma relação muito direta. A música “Dub da Vovó” é uma música que ela já cantava no show dela. A Luiza tem uma relação com as minhas composições, também. E eu com a banda dela. O Glauber toca na banda dela também, com ela. Fora esse lance da vida pessoal. E não tinha outra pessoa pra cantar essa música comigo. Tinha que ser ela, falando de negritude, de racismo, de maneira sutil e “dubística”, dentro da letra, da música brasileira. Porque é uma música tem pouquíssimas palavras. A gente vai só trocando algumas coisas, e vai passando a intenção com a variação, com a repetição. Tem essa lombra aí, nesse dub.

Tem o Rami, também, que participa do disco todo tocando percussão, criando arranjo, além de mim, do Agno, do Glauber e do Beto. E tem toda uma ficha técnica aí incrível, né? Tanto da galera das artes visuais quanto quem contribuiu pra engenharia de som, tipo Rami, o Klaus, né? O Klaus mixou e masterizou, o Rami gravou, o Téo participou nas edições. Tem o Jean Duarte tocando saxofone também, na faixa “Alegria Amarela”. Não sei se eu tô esquecendo de alguém… O Kerensky Barata, DJ, produtor, artista visual, videomaker. Faz é tudo, ele! Nosso chapa, toca com a gente também, na medida do possível. Quando a gente bola um trio, ele tá sempre junto. Tocou fazendo scratches e samples na “Dub da Tapioca”, e acho que em outro som, “Dobaba”, também tem scratchs dele.

“A música reggae aqui em Fortaleza tem uma relação com processos de ensino e aprendizado envolvendo o trabalho de DJs nesses espaços, oferecendo lazer pra uma galera.”

Caiô

Fala da capa!

Pronto! Da galera das artes visuais, tem um time aí, também com essa relação de se aquilombar de alguma maneira. O Fluxo [Marginal], eu e o Agno temos uma relação com ele na Espelho Negro, que é um coletivo que a gente tem, meio autogestão – eu, Nego Célio, Mateus Fazendo Rock, o Fluxo Marginal e o Agno, o Agê. A gente produz coisas lá, relacionado a música, vídeo e tal. A gente só não se organiza muito bem, mas trata isso como um grupo. E o Fluxo já trampa com a OutraGalera, fazendo capa. A ideia foi que ele colaborasse junto com um letreiro, numa colagem do Payasso, que é o Jefferson William, em parceria com a galera da fotografia, que é a Ágatha Creston, o Lucas Calisto e a Tainá Cavalcante.

Payasso pegou fotos dessa galera, porque eu já tinha essa ideia. Já era um papo que eu ficava enchendo o saco da Tainá faz é tempo. Tipo: “Ei, eu pensei numa foto, e tal e tal.” E a galera já tava tirando foto pra caramba! Era um pensamento que eu pensava, mas tinha um monte de gente [pensando] também, sei lá. Isso em 2018, já, eu tava dando toque pra Tainá. Ela tinha tirado algumas fotos e tem uma que deu um punch. Ela até já vendeu o print e tudo mais, que foi essa. Misturou com uma da Ágatha também, e outras fotos dela e do Calisto compuseram a contracapa.

Aí o Payasso fez a tipografia, fez o design todo da parada, e o Fluxo entrou na capa. E na contracapa, entrou com o letreiro do OutraGalera, que é dele. Ele fez esse letreiro. Mas também a galera trabalhou fazendo vídeo, o visualizer que tem no YouTube, fazendo vários outros materiais que compõem essa divulgação. A galera tá com a gente assim porquê, meu irmão, a gente ficou muito sem investimento, sabe? Fazendo tudo de maneira independente. Então a galera precisa acreditar mesmo que é uma parada que é massa pra você tá participando. Então agradeço demais todo mundo, todo mundo mesmo. O Téo Fonseca também participa dessa rede, nos vídeos, colocando letreiro, fazendo lyric . Todo mundo faz um pouquinho de uma parada, mas essa equipe é a base pra essa parte visual.

Caiô, vamos lá, pra gente concluir: o que você acha que é Original Fortal?

Pois é, essa pergunta é uma pergunta que geralmente rola. E aí, o quê que é Original Fortal? Acho que Original Fortal é esse disco, mas também são várias coisas. São as pessoas daqui de Fortaleza, com foco nesse recorte dessas pessoas que eu acho que o disco fala, sabe? Então escutem o disco pra saber o que eu tô falando. Tô brincando! Escutem o disco, sim. Mas o Original Fortal

Acho que ser Original Fortal é você é meio que… você sobreviver, sabe, cara? A essas realidades, né? Não é o lance só visual, Praia de Iracema ou Fortaleza, e close, né? Porque pode parecer, né? A gente coloca isso dentro da estética também. Mas é essa vivência. Essa vivência adentro. Adentro dos tijolos, da coisa que tem pra dentro da cidade, do interior, também. E como o interior influencia as periferias da cidade. E eu acho que é isso, sim. A originalidade dessa cidade tá na sobrevivência, na resistência.

E esse disco, ele é meio metalinguagem. Com muita música, ele fala da vida de artistas, do artista, de fazer arte. Então, tem a ver com isso. Tem a ver com essa resistência. Mas eu não sei explicar o quê que é realmente original. Porque, né? Tal hora passa a ser até uma coisa que não é original ficar falando. Porque a gente não descobriu a roda, o fogo. É uma coisa que todo mundo faz: reggae, rap. Sem menosprezar o nosso trabalho, que foi trampo pra caramba, mas… não é que a gente seja mais original que alguém, ou que exista algo mais original. Mas acho que a originalidade de Fortaleza tá na resistência da galera daqui, dessa galera que não é só a galera dos closes. É a galera do corre também.

GERAL PELAS TRACKS COM CAIÔ

01. Abrir Caminho

“O disco começa com uma onda mais introspectiva. Tem dub, mas dentro do arranjo também tem influência da música de música nordestina, de forró, de outros elementos. É uma música que tá falando sobre um processo novo de aceitação, de uma identificação com a espiritualidade que vem dessa influência africana. Tem Exu também, mas não Exu como essa figura clássica, e sim Exu como a gente, como esse deus que a gente também é. Tá tudo aqui.”

02. Dub da Tapioca

“É uma faixa que a gente toca já faz um tempo. Ganhou essa versão com mais elementos percussivos. Gosto mais dessa versão. Tem dedicação de mais pessoas. A versão que a gente cravou no Prêmio Dynamite foi umas paradas no iPad, sabe? A gente gravou uns ‘ao vivo’ tocando com vontade de tocar, subiu pra internet, e de repente o Mateus [Fazeno Rock] me ligou falando que o trampo dele do qual eu participei tinha sido indicado. (A gente inclusive tá fazendo o segundo de Mateus, mas isso aí é outro esquema.) O bicho falou: ‘Ei, vocês tão também lá, indicados.’ Foi massa, muita gente votou. Apesar de não ter ganhado, ganharam duas pessoas Fortaleza. Mas a gente tava lá disputando. Irado!”

03. Eu e eu (Ina Roots Remix)

“É uma música do Sacal da qual a gente faz uma citação. Escrevi uma parada em cima. É uma música que explora influências de Nyabinghi, tem uma relação com percussividades da música africana. Tem a participação do Eric Barbosa, do Rami [Freitas] tocando percussão. É uma música que tenho um carinho muito grande e que fala também sobre negritude, sobre essa relação com a África dentro da gente, sobre os povos pretos nas capitais, resistindo.”

04. A2

“O nome já vem de como a galera chama um gênero de dança de reggae. É quando a galera vai dançar juntinho. No Maranhão, também tem esse esquema. Minhas referências maiores são daqui de Fortaleza. É bem direta, literal. É uma dança de pessoas que estão querendo curtir, querendo ir no mar, querendo estar juntos. Rola um afeto. É uma música pra festa, pra você que quiser escutar. Celebrar!”

05. Dobaba

“É talvez uma das músicas mais antigas do disco. Foi gravada antes, acho que já tinha saído num vídeo do Fluxo Marginal. Mas a versão oficial inédita saiu agora, no Original Fortal. É uma espécie de storytelling. Vai contando várias paradas sobre a cidade. Uma visão. É como se fosse um grande rolê pelo dia a dia de Fortaleza. Mazelas, pra quem adentra mais. Mas também tem coisa bonitinha. É uma música que tem outra versão também, pra quem quiser escutar, junto com beat do DJ Kerensky Barata.”

06. Dub da Vovó

“Talvez a minha faixa preferida do disco. Se a gente tivesse como investir, a gente ia fazer um vídeo massa dela. É a música que começa uma sequência. Ela conta uma história legal, junto com as outras duas faixas que vêm a seguir. Tenho um carinho muito grande por ela. Fala de maneira sutil sobre esses temas que aparecem na Eu e Eu, em Abrir caminho também, e em outras faixas do disco.”

07. Medo do Nego

“É um interlúdio. A Luiza também já tocava essa música antes de ser gravada. É antigona. Fiz na época em que fiz “Alegria Amarela”. Era para ser um interlúdio mesmo. É uma brincadeirinha pesada, que fala sobre a galera que tem medo do nego. Tipo: ‘Ei, tá com medo do nego?’ Ou então, medo do negro, do preto.”

08. Alegria Amarela

“Já estava rolando na cidade, porque foi gravada pela Lorena Nunes. Tem essa vibe de falar da cidade de Fortaleza de maneira bem harmoniosa. Essa versão tem bastante influência de reggae, de dub e de Jorge Benjor.”

09. Do Prensadim

“É um rub-a-dub, uma música mais festa. Fala de maneira mais subjetiva, apesar de parecer bem literal, sobre essa limpeza que rola sobre a criminalização de algumas drogas para determinadas pessoas. E a galera da periferia, a galera que consome a coisa mais industrializada, mais embutida, que não consome as flores lindas e maravilhosas, está passando por uma série de coisas. É um monte de coisa que vai te coloca para esse lugar mais afastado, as beiras, as beiradas. Enquanto isso, tem uma galera que tá aqui, por cima da carne seca.”

10. Dub das Barata

“Tem uma identidade muito característica da OutraGalera. Você encontra elementos de rap na letra, você encontra influência do reggae, do dub. Tem referências e citações. Meio sample, sem ser. Referências ao Bob Marley, ao [álbum] Natural Mystic. Gosto muito da versão do disco. Todo mundo da banda tem um carinho muito grande assim por ela. Quem gosta de dub, de reggae, e dessa mistura que a gente tá fazendo com OutraGalera, vai gostar muito dessa versão do Original Fortal.”

Esta entrevista foi ao ar no programa Zumbi #109, transmitido em 15 de agosto de 2021, pela Rádio Universitária FM, em Fortaleza-CE. O Zumbi tem o apoio da Secretaria de Cultura Artística da Universidade Federal do Ceará.

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