Doiston, pt. 2

O trapper fortalezense Doiston, em ensaio fotográfico de Txai Nunes

Thaís Aragão — Você lembra quando foi o primeiro trap que ouviu?

Doiston — O primeiro trap…

Pelo menos que você tenha consciência…

Soulja Boy. Acho que ali já era trap. Acho que o primeiro que eu escutei foi o do Soulja Boy, aquela do Superman. Não sei como é o nome da música, agora me deu um brancão. [Cantarola.] Não sei cantar a música, mas foi esse, entendeu? Depois vou procurar e te mandar, certinho. Mas acho que foi o primeiro trap que escutei. Ali, foi um impacto. Acho que vi na TV União, na época que passava bastante clipe de hip hop americano. Foi das minhas primeiras influências também, eu acho.

E já te bateu isso? Ou foi quando você mesmo foi fazer?

Na realidade, a música chegou para mim primeiro através da dança. Porque eu dançava, era dançarino. Eu sou coreógrafo também.

Você coreografou o [videoclipe de] “Deuses Negros”?

O “Deuses Negros” fui eu que coreografei. Foi na hora lá, no dia. Chamei os meninos, a gente se juntou e eu falei assim: “É o seguinte: a nossa meta é sair daqui com clipe pronto, mas a gente não tem coreografia”. E a gente começou a fazer, enquanto os meninos ajeitavam as luzes, as câmeras e tudo. E aí a gente fez a coreografia e gravou.

Era breaking que você dançava também? Era no hip hop?

Era suingueira. É pagodão baiano, só que aqui a gente chama de suingueira, né? Tinha um certo preconceito, até, quando comecei a fazer rap. Porque a galera desacreditava mesmo. Até postei isso no meu Twitter, falando que tinha muito preconceito quando comecei a fazer rap. A galera achava que, tipo… Mais uma moda que o Doiston inventou pra poder se destacar em alguma coisa, né?

Porque o Doiston não veio do rap, é bem de antes. Comecei a criar batidas. Comecei a fazer os beats primeiro, antes das letras, pra tentar dançar em cima dos beats que eu fazia. Aí, não consegui fazer os beats e fiquei meio frustrado. Dei um time. Aí comecei a baixar beat da internet, para ver como é que eles faziam, para tentar copiar. Só que ao invés de copiar, fiz umas letras em cima e ficou da hora. Gostei, e comecei a fazer outras letras. E até hoje. Não parei mais.

Foi em 2015, isso que você falou? As primeiras letras, né?

2015.

E você virou o rapper que tem sempre um caderninho do lado, um papelzinho ali?

O meu negócio é papel e caneca. Não tem negócio de notebook, tablet ou celular. Não consigo escrever. Não sei, acho que é um ritual que a gente tem que fazer. Pegar o papel, começar riscar algumas coisas. Não gostou, amassou. Desamassou, leu de novo. Eu tenho isso.

“A música chegou para mim primeiro através da dança. Porque eu dançava, era dançarino. Sou coreógrafo também.”

Doiston

E Doiston veio de onde, então?

Doiston vem… É um apelido de infância. Porque meu apelido de infância é Tontón. À medida do tempo em que fui amadurecendo, eu [pensei]: Tontón tá muito infantil, vou botar pra Doiston. Aí, mudei. Por conta própria. Não foi ninguém que me deu. E as pessoas não estranharam e continuaram me chamando de… Alguns, de Tontón. Onde eu morava antigamente, que é lá na comunidade da Verdes Mares, ali no Papicu, ainda me chamam de Tontón. Mas fora da Verdes Mares, é Doiston.

E onde é que você tá agora?

Eu agora tô morando na Granja Lisboa, no grande Bom Jardim, coladinho ali com a Caucaia, já.

Quando foi que você começou no hip hop? Você tava falando que quando você começou o pessoal pensou que era uma moda. Quando foi isso?

Final de 2016 para 2017, comecei a…. Tive interesse não só de compor mas de gravar as músicas. Gravei minha primeira música no estúdio do Erivan Produtos do Morro, que fica ali no Castelo Encantado. Gravei duas músicas lá e voltei para casa para ouvir. Nem lancei as músicas. Até botei no YouTube, mas só para guardar lá. Acho que até hoje tem lá, só que não lancei. Foi nesse final de 2016 para 2017, por aí.

E quando você encontrou a galera que, hoje, quando a gente vê, vocês já tão tudo juntos: o Edgar Marques, o Jonas [de Lima]. Como é que foi isso aí?

Foi uma energia muito, muito boa, que rolou ali entre no finalzinho do ano de 2017 para o ano de 2018, que a gente se conheceu aos poucos. Todo mundo se conhecendo, aos poucos. Eu já tava meio que desacreditado em fazer música. Eu não queria mais fazer rap. “Não, isso aí não é para mim, não.” Eu não achava ninguém que tivesse a mesma ideia que eu, pra avançar. Porque as pessoas com quem eu me relacionei para fazer rap eram meio descompromissadas. Algumas não tinham como desenvolver. Por conta de família, trabalho… Essas dificuldades que a gente vê para qualquer artista, de não ter condições de poder gravar as músicas, não ter um estúdio, não ter uma mínima condição. E aí, para.

Era o que tava acontecendo comigo. Tava trabalhando, de carteira assinada, e eu não queria largar o emprego para poder me dedicar à música, ao rap. E eu tava meio desacreditado, mas continuava fazendo meus beats ali, sempre desenvolvendo algumas letras, algumas ideias, acompanhando a galera do rap, estudando. Mesmo desacreditado, eu ainda tava estudando, porque gostava do rap. Acho que deveria ter conhecido o rap antes. E aí, conheci o Grou, que é um brother meu. Muito brother mesmo! Agora, porque antigamente não era. Conheci ele através de uns vídeos dele do YouTube, que eu vi e falei: “Esse moleque manda bem. Vou mandar um beats para ele, que eu tenho aqui”. Aí mandei para ele. Mandei pra ele, e ele mandou pro Edgar – que já conhecia o Edgar. O Edgar Marques, que é o nosso DJ e produtor.

Frutos Records!

Frutos Records. [risos] Frutos nem existe mais. Raiz Records, Edgar Marques: é, agora é só isso. Mas surgiu a Frutos daí, entendeu? A gente foi se conhecendo. Cheguei lá pra mostrar um beats abertos, e falei: “Mano, eu tenho uma letra”. Aí mandei a letra e ele falou: “Crlh, tu manda muito bem, mano. Vamos gravar, vamos gravar. Chega aí pra gente gravar”. A gente fez uma parceria. Comecei a chegar lá, pra gravar algumas músicas. E aí é que começou a evoluir as produções, a minha visão de música. Até então, eu só sabia samplear e botar umas batidinhas em cima do que já tinha criado. E aí, lá, eu aprendi muitas coisas. Aprendi noções básicas de música, como usar o autotune, que era uma ferramenta que… Para mim, não existia nada que conseguisse fazer eu cantar bem. Eu não tinha essa visão de que conseguiria cantar bem. Aí, ele me mostrou essas ferramentas e a gente conseguiu aplicar no dia a dia, trabalhando lá e fazendo umas letras e beats, e tudo. Até hoje, a gente se dá muito bem.

Doiston com a galera na Praça do Ferreira, Centro de Fortaleza, em 2018

Com o tempo, a gente conheceu o Coro [Jonas de Lima]. Eu já conhecia o Coro, os trabalhos dele, que ele lançava. Eu era fanzaço dele, já. E do [Nego] Gallo, também. Quando o Gallo foi gravar lá no estúdio, foi uma época que o Avicena também tava aqui. O Avicena é um rapper lá de Aracaju muito brother nosso, também. Arrebenta. Só que agora tá meio parado, por conta de trabalho, família, essas coisas. Mas promete voltar, aí. Avicena… Um salve pro Avicena, onde você estiver, não sei se você está me escutando. Como se fosse uma sessão espírita, né? [risos]

Ele [Gallo] foi lá no estúdio pra gravar com o Avicena”, de Aracaju, e eu cheguei lá no dia que eles foram gravar. Conheci o Gallo lá. A gente trocou uma ideia. E ele já sacava do meu som, que eu já tinha soltado uns dois sons. A gente começou a conversar e virou muito brother. Com o tempo, o Coro também começou a colocar lá no estúdio, entendeu? Foi muito rápido, foi um negócio muito rápido. Antes disso, eu já tinha conhecido uma galera, lá. O Vilão, a Nara [Hope], que fazia parte da Frutos. Igor, que era nosso produtor na época. Delabraga também fez muito barulho em 2018. Deu um pause em 2019, mas foi muito barulho em 2018. E promete voltar também, DelaBraga. Força total em 2020.

A gente formou aquele time e começou a produzir vários sons. Saiu muita música boa. Por conta de alguns problemas de tempo, e uma falta de organização, a gente resolveu cada um tomar o seu trabalho. E aí, sei lá… No futuro, a gente poderia fazer algo junto novamente. Mas, para agora mesmo, cada um vai se organizando, deixando de pé o trabalho de cada um, e seguindo. A gente de um time mas…

O Jonas tá aí no feat, no EP.

Isso! Jonas, e também Vilão também tá no feat.

Vilão também, exatamente. Na faixa “Vai ser sal”. O nome do EP é Foi sal, e o nome da musica é “Vai ser sal”.

É porque a faixa foi feita antes do nome do álbum. Quando tava criando álbum, a gente pensou: o que a gente pode colocar para ser o nome do álbum, que tenha uma relação tanto com a cidade, quanto com a arte que a gente vai colocar, quanto com as pessoas que estão envolvidas no trampo, entendeu? Aí, a gente chegou até “foi sal”, que é uma gíria local, única e exclusiva de Fortal. Você não vê em outro local.

“Roxeda” é uma gíria que o pessoal de Pernambuco também tem, mas “foi sal”…

Foi sal” é daqui. Aí, resolvi levar isso para o meu álbum, pro EP. Talvez isso se espalhe pelo Brasil todinho.

Vamos ver.

Acredito que sim.

Sim. É muito bom, “foi sal”.

Foi sal.

“O ‘rap game’ existe e é necessário. Dá uma movimentação. Mas músicas infantis demais acabam influenciando para coisas ruins.”

Doiston

“Rap para criança os adultos não consomem”. Esse verso é sensacional e queria que você falasse um pouco dele. Tem muitos! Mas já que a conversa tem que terminar, trouxe logo esse aqui, que acho fantástico.

“Rap para crianças adultos não consomem”. Pois é! As pessoas falam muito do rap game, essa disputa entre os rappers, esses ganchos de punchlines, e tudo. Só que eu vejo como brincadeira de criança, entendeu? O rap game existe e ele é necessário. Dá uma movimentação. Mas, tipo… músicas infantis demais, que acabam, em vez de influenciar para coisas boas, influenciando para coisas ruins. Isso, para mim, é música de criança. Criança, falando, é no pensamento. Foi uma metáfora que usei para pessoas que tem pensamentos fúteis e que jogam isso de forma negativa para outras pessoas. Acho um desperdício de conteúdo. Acho que é falar sobre coisas que não são relevantes pra gente. E aí, “rap para criança os adultos não consomem”. Quem tem uma mente que já tem essa visão de que isso não é legal para cena, nem pras pessoas, vai ignorar. Não falo só de pessoas maiores de 18 anos, ou seja, adultos. Falo na cabeça. Pode ser um moleque de 12 anos, entendeu? Se ele ver que aquilo ali não é uma ideia legal, ele vai ter um pensamento adulto, um pensamento maduro. Quando falo adulto, é no sentido maduro da ideia.

“Eu quero é churrasco na brasa”. É falta de ser político, ou é tipo essas tretas?

“Eu não quero treta, eu quero é churrasco na brasa”. Pessoas chegam falando sobre outros MCs. “E fulano? Como é teu relacionamento com Beltrano?” Irmão, não quero saber. Não quero citar pessoas na minha vida, para não interromper o meu trabalho. Eu não quero saber de treta. Eu quero saber do meu ganha-pão. Churrasco na brasa é uma referência à minha vida, à abundância da minha família, da minha vida, do que eu quero, da minha visão de melhoria. Não só em relação a fim de semana e pá, comer um churrasco. Também! Mas é mais uma metáfora sobre a nossa vida, mesmo.

Vamos tocar a vida!

É, talvez. Tem pessoas que levam isso como metáfora ruim. Até porque churrasco também, toda hora, engorda. [risos] Mas é uma visão que eu tive. Sou muito “viajoso” quando tô escrevendo minhas letras. Penso em muitas coisas. Tem muita letra aí, que as pessoas ainda estão pra desvendar. “O que ele quis dizer com isso aqui?” Entendeu? Eu acho isso muito legal, acho que desperta a imaginação das pessoas. Não é só a palavra, em si. É a metáfora, uma visão, todo um contexto para chegar no final da linha.

Eu até me desculpo um pouco, porque pedir para o rapper dizer ‘o que é isso’ às vezes mata um pouco a charada.

Mata. Mas eu acho que esse é válida.

Valeu! Então bota no microfone alguma rima do EP Foi sal que você acha que vale a pena, pra galera ter uma palinha, só na sua voz.

É, vamos lá. Deixa eu ver uma coisa…

Eu vim de tão longe
Apesar da viagem, eu tô bem
No pique da atividade
Eu jurei pra minha mãe que eu ia ser alguém
E eu tô fazendo a minha parte
Eu nunca fui do crime
Sempre fui do mundo
Eu vim do fundo, nadei rio acima
Passei umas brita e umas cocaína
E coisas que só a rua oferecia
Eu fiquei balançado em frente às quadradas
Uns quilos de fumo, umas minas, piscina
Uns primos que arrebentavam na esquina
Não sabem do game, a rua te ensina
Pedro, não quero ir pra guilhotina
Já vi esse filme, sei bem o roteiro
Porque os bons sempre morrem primeiro
E eu tenho outros projetos pra minha vida…

E assim vai… Essa é a faixa “Foi sal”. É um pouco do meu verso. Tá lá.

E pra terminar essa super conversa aqui com Doiston, vamos falar sobre 2020. A década foi importante para o hip-hop mundialmente. Sempre é bom frisar que ele passou o rock como gênero mais ouvido (nos Estados Unidos), e gostaria de saber o que você espera em 2020 para o hip hop de Fortaleza, para o rap nacional e para o Brasil.

Pro hip-hop em Fortaleza, eu vou falar em hip hop, não vou falar só em rap. Acho que o crescimento do hip-hop aqui tá aumentando. Até pelo avanço que a gente tá vendo, ano a ano, de pessoas que tão muito mais interessadas em se envolver com o hip-hop, saber, entrar a fundo. Não só superficialmente, não só o que vê na TV, não só o que vê nas rádios, ou algo do tipo. Estar em eventos, estar nos locais onde tem o hip-hop. Os jovens estão chegando mais nos locais, chegando para participar dos eventos de basquete, do grafite.  Querem saber mais sobre a cultura do hip-hop. Acho que isso é um ponto muito positivo. Acho que, aqui em Fortaleza, vai aparecer muito mais evento. Apesar de ter tido muito corte nas verbas para esse tipo de evento, acho que vai ter muito mais evento voltado para o hip-hop. Até por conta desse crescimento, dessa massificação.

No Brasil, eu vou falar do trap. Porque, em geral, o trap que tá crescendo, da mesma forma que o hip-hop vem caminhando em Fortaleza. No Brasil, ele também vem caminhando de uma forma que tá tomando alguns espaços que antigamente o rap mesmo não chegava. O rap tinha portas fechadas em alguns locais. E, aí, o trap abriu essas portas. Não falo só mercadologicamente. Falo de muitos jovens que não conseguiam se ver dentro do rap (que se fala que era muito mais violento do que hoje, apesar de também ser muito mais consciente do que hoje). Acho que essa visão mercadológica do trap fez com que as outras pessoas conseguissem ver o gênero como um potencial, não só no mercado brasileiro, mas como mudança das pessoas, que soma na vida das pessoas. O trap no Brasil tá crescendo e vai crescer muito mais, por conta disso.

“O rap tinha portas fechadas em alguns locais. E o trap abriu essas portas. Não falo só mercadologicamente.”

Doiston

E a visão que tenho sobre o Brasil atual, hoje… Brasil geral. A gente vê que rolou muita coisa aqui, no ano de 2019. Foi um ano de turbilhão, foi muito marcante. Lula tá livre. Eu sou muito simpatizante do Lula, certo? Acho que ele foi um cara que influenciou muito na cultura jovem dos anos 90, 2000. Cresci nessa época aí, e acho que foi muito bom. Não só para a arte, mas os benefícios que ele conseguiu para nós, brasileiros menos privilegiados. E queria deixar bem claro esse apoio, essa visão que tenho sobre ele.

Mundo conturbado, presidente meio que a parte de tudo, descaso. Acho que as pessoas têm que ter um pouco mais de consciência. Não pelo que fizeram em eleger um presidente incompreensível e irresponsável, mas de ver que a gente tem que andar para frente. Não foi vantajoso fechar os olhos para um defeito ou uma visão. Acho que isso tudo é uma visão mercadológica, em que o dinheiro paga o que as pessoas veem. Paga o que a gente consome. O que foi chegado até as pessoas que votaram nele? Como foi que aconteceu? Acho que tudo isso influencia. Tenho esperança em um Brasil mais consciente em vista do que tá acontecendo e do que aconteceu. Espero que as pessoas sintam-se mais conscientes. Não só nas urnas, mas na vida. Ao sair de casa, trocar ideias com pessoas, conseguir se chegar de forma mais gentil. Porque as pessoas não olham mas os olhos das outras, entendeu? Tem aquele certo medo, aquele certo receio. Por conta de visões políticas, sociais e culturais. Eu tenho esperança de pessoas mais conscientes. Essa é minha visão para o Brasil.

2020, vambora. Obrigada Doiston, aqui na Universitária FM. Vamos ouvir música!

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Esta é a segunda e última parte da entrevista gravada em 12 de novembro de 2019 e transmitida no dia 24 daquele mês, no programa Zumbi – O Rap na Universitária FM. Escute na íntegra, dando o play abaixo, a partir de 32:50.

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