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Chico Science, inédito por 23 anos

ENTREVISTA INÉDITA

Chico Science: a cara de um Nordeste afrociberdélico

Por Thaís Aragão

Em 1996, Chico Science e Nação Zumbi vieram a Fortaleza para fazer o show em que apresentariam seu novo álbum, o Afrociberdelia. Na manhã do dia daquela apresentação, acabei sabendo que a banda estaria em um hotel na Beira Mar e fui até lá, conversar com o líder da banda, figura maior do Manguebeat, movimentação cultural de Recife que sacudiu a cultura brasileira naquela década. Encontrei um Francisco de Assis França super paciente e atencioso com uma estudante de jornalismo ainda adolescente. E também encontrei um Chico Science com a cabeça fervilhante de ideias, buscando pensar o maracatu e o samba a partir das possibilidades mostradas pelos brilhantes DJs de música eletrônica dos anos 90.

Hoje, é bem mais claro perceber que, nesta entrevista, o artista desenha o arco criativo que liga os dois álbuns de CSNZ ao primeiro álbum da Nação Zumbi sem Chico Science, Rádio S.Amb.A.: Serviço Ambulante de Afrociberdelia. Lançado no ano 2000, a obra se inicia com a canção “Do mote do Doutor Charles Zambohead”. Essa foi a identidade que o entrevistado me revelou em 1996. A conversa não foi lançada no fanzine que eu editava na época porque Chico Science morreu poucos meses depois, em um acidente de carro. Guardei luto. Só agora, que Da Lama Ao Caos, o álbum de estreia da banda, completou 25 anos é que decidi divulgá-la. A gravação foi ao ar no domingo, dia 05 de janeiro (com reprise no dia 12), em edição especial do programa Zumbi – O Rap na Universitária FM. Também chegou aos leitores do jornal O Povo, a convite do Vida & Arte, no dia 06, mais curta. Agora, você a lê na íntegra.

Thaís Aragão – Por que esse nome Chico Science?

Chico Science veio do amigo. A gente estava fazendo uma festa de final de ano, que era o 4º Pior Reveillon do Mundo, né? Por causa daquela história de Recife ser a quarta pior cidade do mundo, e tudo mais. Aí, Renato [Lins, ministro da informação do Manguebeat] chegou com esse nome de Chico Science. Isso foi de 1990 para 1991, e eu estava fazendo essa história dos ritmos, a história do mangue. Estava misturando não-sei-o- quê, também gostava de ficção científica, não-sei-o-quê. E ele achou um apelido pra me dar: foi o Science. Aí ficou Chico Science. Todo mundo começou a falar, então ficou.

Então, você…

…mas eu prefiro Charles Zambohead.

Ai, é? O que significa?

É outro pseudônimo.

Muito bem.

Charles Zambohead!

Primeira faixa de Rádio S.Amb.A. (2000), primeiro álbum da Nação Zumbi sem Chico Science: “Do mote do Doutor Charles Zambohead”

Agora que está pegando esse fio de regionalismo, tem muita banda que está (nisso) para acabar aparecendo na MTV. Mas tem umas que são só…

Só fachada.

É… E tem outras que não. Dessas que estão aparecendo, em quais você bota fé?

Tirando esse lado do regionalismo, eu gosto do Eddie, que é uma banda lá de Recife. Tem uma banda de Sergipe… Não, de Alagoas! Lacertae. São um trio. Acho que eles acabaram, até. Mas muito legal, muito original. Os caras tocam umas flautas, uma coisa meio xamã com Biohazard. E outras coisas muito legais. Eu acho que aquele segmento Raimundos, e falar de mulher pelada e não sei o quê… Não é desmerecendo o Raimundos, porque eles têm um som super original. O filão que vai aí atrás é que, às vezes, você precisa estar ligado pra saber se é realmente uma galera que está fazendo uma coisa séria ou não. Sei lá! Acho que, de palhaçada, no Brasil, todo mundo já está cheio. Então enche o saco quando você vê uma emissora como uma MTV rolando outras coisas mais besteirol.

Não é desmerecendo o Raimundos, porque eles têm um som super original. O filão que vai aí atrás é que você precisa estar ligado. De palhaçada, no Brasil, todo mundo já está cheio.

Chico Science
No dia da entrevista, realizada em 1996, Chico Science estava em Fortaleza lançando seu segundo álbum com a Nação Zumbi, Afrociberdelia

Como surgiu a palavra Afrociberdelia, com toda essa mistura de parâmetros?

A gente recebeu esse nome de um amigo, um artista gráfico lá de Recife, Paulo Santos, cunhado de um amigo nosso, Mabuse. Sempre conversava com esse meu amigo a respeito de música. ‘Ah, eu quero fazer aquilo, quero fazer aquilo-outro.’ A gente sempre também gostava dessa coisa de tecnologia. Tinha uma banda chamada Bom Tom Rádio, que era uma bateria eletrônica pequena, baixo e scratch [técnica de tirar som arranhando disco de vinil com a agulha do toca-disco]. Só isso. Era eu, Jorge (Du Peixe, atual vocalista da Nação Zumbi) e esse amigo, Doktor Mabuse. Aí, o cunhado dele sabia o que eu estava fazendo também com o (grupo de samba reggae) Lamento Negro, que foi bem no início. Sabia das minhas ideias de botar barulhos no maracatu, trabalhar com mais noise, botar batida virtual com batida real, com o ritmo mesmo. Ele começou a viajar em toda essa história que a gente sempre comentava nos ensaios do Bom Tom Rádio. Porque o Bom Tom Rádio tinha essas coisa também. A gente trazia alguns instrumentos de percussão para tocar junto. Coisas bem legais, coisas que muitos DJs estão fazendo lá fora atualmente com o samba. Aí ele chegou e falou: ‘Ah, rapaz! Esse som de vocês é afrociberdélico (risos). Isso é afrociberdelia’. Aí, eu: ‘ahhhhhhh!’ Todo mundo começou a rir. Aí, pronto. Ficou esse afrociberdelia. Pô, Afrociberdelia! Parece até com Scremadelica, né?

É, o álbum do Primal Scream.

Aí, a gente fez uma música na banda [Chico Science e Nação Zumbi], que é “Coco Dub”, no primeiro disco [Da Lama Ao Caos]. “Coco Dub” tinha muito esse lado, do ritmo de um coco repetido: tum, tudumdum-tudum, tutum, tchiquidum-tchi! A guitarra que o Lúcio (Maia) botou ficou, porra… muito legal! Bem a ver com o estilo, mesmo. A música pegou um pique que, sei lá! Com os efeitos que eu estava pensando em colocar, com aquela coisa do “Dona Maria”. Uma certa influência até de Naná Vasconcelos na música. Umas coisas meio… meio índio. Uma cara de um Nordeste psicodélico, de um Nordeste afrociberdélico. Porque o coco é aquela coisa que também já veio do maracatu, já tem essas raízes aí. O Afrociberdelia entrou ali, de ser um subtítulo [para a música “Coco Dub”, última música do álbum de estreia, Da Lama Ao Caos]. Tinha também umas coisas do Kraftwerk que a gente sampleou, uns efeitos. E toda essa coisa de ter a ver com antena, de estar ligado. Botei “afrociberdelia” ali como subtítulo e eu disse: ‘Tem que ser o nome do nosso segundo disco. Vamos dar uma virada. Pegar aí, desse final, para o próximo’. Afrociberdelia vem entrando como uma emenda, como se fosse… Mas isso não quer dizer que esse disco [Afrociberdelia] também deixou…

As coisas para trás?

É, não deixou as coisas pra trás nem deixou também outro mote para o próximo. Mas, com certeza, há uma conexão. Mas não tem nada a ver de ser no final do disco.

Afrociberdelia como o grande mote: está na última faixa de Da Lama Ao Caos, atravessa o segundo álbum (homônimo) e chega a Rádio S.Amb.A

Uma certa influência até de Naná Vasconcelos na música [“Coco Dub”]. Umas coisas meio… meio índio. Uma cara de um Nordeste psicodélico, de um Nordeste afrociberdélico.

Chico Science

Como foi a receptividade do público na Europa, onde vocês acabaram de passar um tempo tocando?

Muito legal. No ano passado, a gente fez uns shows em Berlim. Foi um dos mais legais, que teve bons resultados. Do pessoal ficar perguntando: “Que banda é essa? É do Brasil? Tem CD?”. Até donas de casa estavam lá na frente, vendo o show. Todo mundo: “Macô!!”, sem (a canção) “Macô” ter nenhum registro fonográfico. É um pessoal que está bem ligado nessas coisas, no que é novo, nos sons africanos, nos festivais que tem pela Europa, e que o pessoal vai – e os americanos também. Hoje em dia já foi percebida essa universalidade musical, essa troca, de estar paquistanês com londrino, estar americano com asiático não sei de onde. A música ethno, a world music, ela se conectou mais com esse mercado pop. Então, a gente agora já entrou em festivais diferentes. Fizemos treze shows, seis deles com o Paralamas do Sucesso. Foi legal pra caramba tocar com a banda, dividir o palco. Eles, que têm também já uma bagagem de música brasileira, que já trazem dos anos 80.

Dentre esses treze shows fizemos dois que foram em festivais diferentes, mais com essas bandas pop: Beck, Ministry, Young Gods, Drugstore, um monte de banda. Os festivais mais famosos, de um mercado mais forte. A gente já participou, já dividiu os palcosali, já conheceu o pessoal do Young Gods, o guitarrista do Ministry. A gente se identifica com esse som. É um lado mais de atitude. São as pessoas que realmente mudam alguma coisa na música mundial, desde os Beatles e tudo mais. É uma galera cada vez mais atenciosa.

Hoje em dia já foi percebida essa universalidade musical, de estar paquistanês com londrino, americano com asiático. A música ‘ethno‘, a ‘world music’, se conectou mais com esse mercado pop.

Chico Science

A gente fez esse festival na Bélgica e um segundo na Áustria, em que tinha o Nick Cave e The Pogues. Engraçado que, quando a gente começou a tocar, estava todo mundo parado, olhando. E o som comendo: “Eu vim com a Nação Zumbi!”, tarararam! E o pessoal olhando, porque ninguém entende porra nenhum de português. E a gente detonando e o som e o show pegando pique. Aí vai terceira, quarta, quinta música, e o pessoal já está batendo a cabeça. Isso é legal pra caramba, porque você vê que, se fizer um disco em inglês, pode conectar essa linguagem de maracatu, de ritmos regionais, em outros lugares. É uma questão de informação, de troca. É justamente isso aí. Não sei se isso vai rolar um dia. Talvez role. É legal pra caramba isso de respeitar a língua. Eu acho que é uma necessidade mundial, hoje em dia: mais respeito com tudo, com todos. Então, esse público está crescendo lá fora. A gente está subindo, sei lá! Conquistando. Fizemos um mês lá (na Europa). Não dava para ficar mais tempo. A gente queria fazer mais outras coisas, mas o disco já saiu meio atrasado, então a gente correu e voltou. Fez o Sul do país e está voltando para fazer Fortaleza, onde já faz um ano que a gente tocou, e que tem muito mais a ver.

É a quarta vez que vocês vêm?

É, a quarta vez. E depois a gente vai fazer Campina Grande, Rio de Janeiro na segunda-feira, no Canecão, e volta no domingo para Recife. A gente volta para casa e vai ficar dois meses aí, descansando, montando estúdio. Tem que ter um estúdio pra fazer as coisas. Eu viajo muito nessa coisa de escutar som, tudo que rola no mundo, vamos dizer assim. Tudo que desperta minha curiosidade eu quero escutar. Hoje em dia, estou escutando mais Aphex Twin, os DJs… Estou bem curioso com essa coisa do samba. Estou querendo ver mais, pesquisar essa coisa do samba. Tem outros caminhos do samba. O maracatu, principalmente. Que, creio eu, é o berço desse samba. Eu não me aprofundei muito, assim, para sacar. Não sou antropólogo, mas sou curioso. E acho legal pra caramba essa coisa acontecendo lá fora, com os DJs, como esse Aphex Twin e outros mais. Uma das coisas que me deixam curioso é justamente isso: a bossa nova foi uma das coisas que divulgou, espalhou mais o samba pelo mundo. Está havendo um revival disso aí, mas eu estou sentindo uma necessidade que as pessoas estão tendo de cada vez mais se aprofundar no samba. Eu acho que é a música do próximo milênio.

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Escute o especial Zumbi #50 – Entrevista com Chico Science e 25 anos de “Da Lama Ao Caos

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